O Governo gastou mais de 28,7 mil milhões Kz no Programa de Reforço do Papel de Angola no Contexto Internacional no primeiro semestre, mais de três vezes que os 9,2 mil milhões Kz gastos no mesmo período, no Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PIDLCP), principal instrumento do Executivo para reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida das populações vulneráveis.
A diferença nas despesas entre os dois programas é mais expressiva quando comparado a execução com as despesas inicialmente inscritas no Orçamento Geral do Estado (OGE) 2026. Os dados do Relatório de Execução do OGE referente ao segundo trimestre de 2026 mostram que, enquanto o programa ligado ao reforço do papel de Angola no contexto internacional tinha uma dotação inicial de 994 milhões Kz, mas o valor executado até Junho atingiu 28,7 mil milhões Kz, equivalente a cerca de 2.787% da verba prevista. Ou seja, o Governo desembolsou neste programa quase 29 vezes mais do que o valor aprovado.
Já no PIDLCP, a situação é inversa. Da despesa de 206,7 mil milhões Kz aprovada para o programa em 2026, apenas 9,2 mil milhões Kz foram executados entre Janeiro e Junho, uma taxa de execução na ordem dos 4%. Caso fosse cumprida a regra da boa execução orçamental (25% por cada trimestre), o PIDLCP teria executado metade do valor aprovado, 103,3 mil milhões Kz. O que significa que o Governo, no primeiro semestre, ficou por executar mais de 94 mil milhões Kz no PIDLCP.
A baixa execução do programa de combate à pobreza mantém uma tendência observada nos últimos anos. Em 2025, por exemplo, dos 231,8 mil milhões Kz, foram executados apenas 16,2 mil milhões Kz, correspondentes a uma taxa de execução de 7%.
As dificuldades na execução dos programas sociais foram reconhecidas pelo próprio Presidente da República, João Lourenço, que, em Agosto do ano passado, determinou a reestruturação do PIDLCP. Na nova versão, publicada em Diário da República, o Executivo estabeleceu como meta reduzir a taxa de pobreza extrema no país de 31% para 28% até 2027.
A expectativa era que a reformulação corrigisse problemas de coordenação, melhorasse os mecanismos de execução e permitisse uma utilização mais eficiente dos recursos destinados às comunidades vulneráveis. No entanto, os números dos últimos trimestres apontam que a reestruturação ainda não produziu uma alteração no ritmo de execução.
Com uma população estimada em 37,8 milhões de habitantes, Angola tem mais de 11,8 milhões de pessoas (31% da população) em situação de pobreza extrema, segundo dados do World Poverty Clock. As estimativas mostram que Angola está entre os 12 países do mundo onde o número de pessoas em situação de pobreza extrema continua a aumentar. Caso a tendência se mantenha, o número poderá crescer 5,5%, para cerca de 12,5 milhões de pessoas até 2030.
As projecções apontam para um agravamento da pobreza extrema nos últimos 10 anos. Face a 2016, o número de pessoas em situação de pobreza extrema no país aumentou 84,2%, passando de 6,4 milhões para mais de 11,8 milhões em 2026. A pobreza extrema continua a estar fortemente concentrada nas zonas rurais, que representam 94% dos casos, enquanto as áreas urbanas concentram os restantes 6%.
Para além da pobreza extrema, os dados do World Poverty Clock indicam que a pobreza, numa definição mais ampla, afecta 47% da população angolana, ou mais de 17,8 milhões de pessoas. Outros 67% da população, cerca de 25,4 milhões de habitantes, vivem em condições classificadas como de alta vulnerabilidade.









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