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Inclusão Financeira: Como os bancos em Angola podem atingir os não bancarizados

Ivanno Gama
26/6/2026
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A inclusão financeira não deve ser encarada como um custo operacional ou uma imposição regulatória. Pelo contrário, é um investimento no crescimento sustentável.

Falar de inclusão financeira é, acima de tudo, falar de oportunidade. Em Angola, este não é apenas um conceito técnico para conferências de economia e finanças; é um compromisso social e económico que define o verdadeiro potencial do nosso país.

A realidade actual é desafiante, segundo dados oficiais do Banco Nacional de Angola (BNA) apenas cerca de um terço da nossa população adulta possui conta bancária. Isto significa que milhões de angolanos vivem à margem do sistema financeiro, dependentes do dinheiro vivo e privados de ferramentas básicas como a segurança, o crédito e a poupança.

A maioria dos nossos concidadãos trabalha no sector informal. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), mais de 70% da população economicamente activa exerce actividades nesta condição, onde as transacções quase não deixam rasto e o numerário é rei.

Mas por que razão permanecem fora do sistema? A resposta não está na falta de vontade, mas nas barreiras que o próprio sistema ergueu:

·  Distância física: A falta de agências em zonas remotas.

·  Burocracia: Exigências excessivas para acesso aos serviços e produtos bancários.

·  Desconfiança: Uma barreira invisível que as instituições ainda precisam de ultrapassar com transparência.

Para que a inclusão financeira seja real, o paradigma tem de mudar, os bancos precisam de se adaptar à realidade das pessoas, e não o contrário. A banca que se quer moderna deve ser capaz de falar a linguagem das comunidades.

A aprovação da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira (ENIF 2025–2027), pelo Decreto Presidencial n.º 237/2025, marca um momento decisivo. A ENIF demonstra que a inclusão financeira é agora uma prioridade de Estado, com foco no empoderamento de mulheres, jovens e pequenos empreendedores.

A experiência internacional mostra-nos que o caminho é viável quando existe visão:

· No Quénia, soluções de pagamentos móveis permitiram integrar milhões de cidadãos no sistema financeiro sem necessidade de agências físicas tradicionais.

· No Brasil, o modelo de correspondentes bancários levou serviços financeiros a zonas remotas, através de parcerias com o comércio local.

· Na Índia, programas de contas bancárias simplificadas, associadas à educação financeira, permitiram uma inclusão em larga escala.

As experiências dos outros países, devidamente adaptadas à realidade angolana, oferecem importantes lições:

·  Simplificação de produtos e serviços, com contas de baixo custo e requisitos acessíveis;

·  Aposta na banca digital e nos canais alternativos, aproveitando a elevada utilização do telemóvel e o crescimento da utilização da internet;

·  Educação e literacia financeira, levada às comunidades, mercados e escolas, pelos bancos;

·  Produtos e serviços ajustados à economia informal, como microcrédito, poupança flexível e meios de pagamento electrónicos simples e de fácil uso;

·  Construção de confiança, baseada na transparência e na clareza da comunicação entre bancos e clientes.

A inclusão financeira não deve ser encarada como um custo operacional ou uma imposição regulatória. Pelo contrário, é um investimento no crescimento sustentável. Um cidadão que hoje realiza pequenas operações é o empreendedor que, amanhã, será um cliente fiel e um parceiro no desenvolvimento do sistema financeiro.

Ao olharmos para o futuro da banca em Angola, devemos questionar-nos com honestidade:

·  Os produtos financeiros existentes respondem realmente às necessidades da maioria da população angolana?

·  Estamos a utilizar a tecnologia para inclusão financeira ou apenas para optimizar processos internos?

·  Como integrar progressivamente os negócios informais no circuito bancário sem comprometer a sua sobrevivência?

·  Que papel social cada banco pretende desempenhar no desenvolvimento económico do país?

 A inclusão financeira é um desafio que não pode ser adiado. Angola tem condições para construir um sistema bancário mais próximo das pessoas, mais simples e mais inclusivo, sem abdicar da solidez e da responsabilidade que caracterizam o sector e isso exige coragem e empatia.

Enquanto gestor bancário e cidadão, acredito que bancos mais inclusivos contribuem não apenas para melhores resultados financeiros, mas também para uma economia mais equilibrada e uma sociedade mais justa. O futuro da banca angolana passa, inevitavelmente, por integrar quem ainda está à margem do sistema financeiro formal.

O futuro da nossa economia começa com as decisões conscientes que tomamos hoje.