O sector das telecomunicações em África atravessa uma fase decisiva da sua transformação. Nas últimas duas décadas, o continente registou um crescimento exponencial no número de utilizadores móveis, tornando a conectividade um dos principais motores da inclusão económica, social e digital. No entanto, apesar dos avanços significativos, persistem desafios estruturais profundos que continuam a limitar o acesso universal aos serviços e a ampliar as assimetrias regionais.
Hoje, África é simultaneamente um espaço de grandes oportunidades tecnológicas e um território marcado por desigualdades no acesso à conectividade. Enquanto algumas economias avançam rapidamente na adopção de redes 4G e 5G, serviços financeiros móveis e infra-estruturas digitais, vastas regiões rurais continuam sem cobertura básica de telecomunicações ou acesso à internet.
Um dos maiores desafios do continente continua a ser precisamente a redução dessas assimetrias regionais. Em muitos países africanos, o investimento em infra-estrutura concentra-se nas capitais e nos grandes centros urbanos, onde existe maior retorno financeiro para os operadores. Como consequência, comunidades rurais e periféricas permanecem desconectadas ou dependentes de serviços de baixa qualidade e custos elevados. Esta realidade não afecta apenas o acesso à comunicação, mas também limita oportunidades em áreas essenciais como educação, saúde, agricultura, banca digital e comércio electrónico.
A questão do custo é igualmente central. Embora o acesso móvel tenha aumentado significativamente, o preço dos dados móveis e dos dispositivos continua elevado para grande parte da população africana. Em muitos mercados, o rendimento médio mensal ainda não acompanha os custos associados ao acesso regular à internet, criando uma exclusão digital silenciosa. A democratização efectiva das telecomunicações em África dependerá, portanto, da criação de políticas públicas e modelos de negócio orientados para maior acessibilidade e inclusão. O verdadeiro desafio será assegurar uma expansão equilibrada, sustentável e inclusiva. Neste âmbito, as empresas de satélites LEO serão de igual modo importantes para a cobertura de regiões onde não existe infra-estrutura terrestre.
Apesar destes obstáculos, o continente apresenta sinais muito positivos. O crescimento da economia digital africana está a atrair investimentos internacionais em infra-estruturas de fibra óptica, data centers e cabos submarinos. Grandes operadores e empresas tecnológicas globais começam a olhar para África não apenas como um mercado emergente, mas como uma das regiões estratégicas para o futuro da conectividade mundial.
Outro especto particularmente relevante é o papel das soluções móveis africanas na inovação global. Serviços como mobile money revolucionaram o acesso financeiro em vários países africanos, demonstrando como as telecomunicações podem servir de instrumento directo de inclusão social e económica. Em muitos casos, África tornou-se laboratório de inovação digital adaptada às realidades locais, desenvolvendo soluções mais acessíveis, flexíveis e escaláveis.
Neste contexto, a cooperação entre governos, reguladores, operadores e investidores privados será determinante. É fundamental criar ambientes regulatórios estáveis, incentivar a partilha de infra-estruturas, reduzir barreiras fiscais sobre equipamentos e promover políticas de universalização do acesso. Sem estas medidas, o risco de aprofundar o fosso digital entre regiões e países continuará presente.
O futuro das telecomunicações em África dependerá, acima de tudo, da capacidade de o continente transformar conectividade em desenvolvimento humano. Mais do que uma questão tecnológica, trata-se de um desafio estratégico ligado à inclusão, competitividade e soberania digital africana.
Angola é, por exemplo, um dos países africanos com custo energético baixo e que eventualmente poderia jogar um papel importante em atrair investimento para a construção de data centers hyperscalers para IA (Inteligência Artificial). O Brasil tem, por exemplo, 8-10 vezes energia mais cara que Angola e anunciou um megaprojecto da empresa Bytedance, dona do Tik Tok, para a construção de um data center com 200-300 MW de energia e um investimento que rondará à volta de 38 mil milhões de dólares norte-americanos até 2035. É importante também mencionar que não importa ter apenas um custo inferior para se atrair este tipo de projectos, mas sim ter uma visão estratégica alinhada a todos os níveis, bem como ter a infra-estrutura preparada para tal. Quando falamos em ter a infra-estrutura preparada, referimo-nos a pontos como energia estável, cobertura nacional e redundância nos serviços prestados.
Resumindo, e no que toca às Telecomunicações como um todo, o nosso continente tem dado passos firmes para a evolução sustentável, sendo que os desafios associados deverão ser superados com a colaboração de todos os stakeholders envolvidos. Para tal, precisamos apenas de reflectir e aceitar o facto de termos a população mais jovem do planeta, onde temos o maior número de pessoas não-conectadas. Se houver investimentos consistentes, políticas inclusivas, governança transparente e uma visão de longo prazo, o sector das telecomunicações poderá tornar-se um dos principais pilares do crescimento económico e da integração regional africana nas próximas décadas.
Darwin Costa* Mestre em negócios na internet e fundador do AOPF (Angolan Peering Forum)















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