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Quando um boato começa a matar, deixa de ser apenas boato

António Páscoa
18/5/2026
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Foto:
DR

Quando o medo começa a mover multidões, a comunicação pública deve chegar antes da pedra.

Há boatos que nascem pequenos: numa conversa de rua, num áudio de WhatsApp, num vídeo partilhado “só por prevenção”. Depois ganham velocidade e, quando damos por eles, já não são apenas histórias. São medo. E o medo, quando encontra multidão, procura culpados.

Os rumores recentes sobre o alegado desaparecimento de órgãos genitais em Angola são, antes de tudo, um espelho. Mostram como uma crise pode começar muito antes de um facto estar confirmado. Começa quando a percepção se instala. Quando a dúvida vira certeza na boca da rua. Quando uma pessoa deixa de perguntar “será verdade?” e passa a agir como se fosse.

As autoridades já disseram que não há casos comprovados de desaparecimento de órgãos genitais. Esse desmentido é importante. Também têm apelado à calma e advertido que actos de violência serão responsabilizados. Mas, segundo notícias que citam fontes oficiais, há pelo menos uma morte associada aos actos de violência provocados por esta crença. A partir daí, o problema deixa de ser apenas a mentira que circula. Passa a ser a realidade que essa mentira começa a fabricar.

É por isso que este episódio não deve ser visto apenas como um caso estranho de superstição colectiva. Deve ser lido como um alerta sobre a forma como comunicamos em momentos de medo. Porque, quando uma sociedade está assustada, a verdade factual não chega sozinha. Precisa de contexto, de proximidade e de instruções simples. Precisa, sobretudo, de chegar antes que a multidão decida por conta própria.

A comunicação oficial existe. O desafio agora é fazer a verdade circular com a mesma velocidade, proximidade e força emocional com que circula o medo. E isso dificilmente acontece apenas por comunicado. O boato não circula só nos telemóveis; circula no táxi, no mercado, na igreja, na escola, na praça, na fila do banco, na conversa entre vizinhos, no grupo da família, no vídeo partilhado ao fim da noite. Se é aí que o medo se espalha, é também aí que a resposta pública precisa de chegar: pelas vozes que as pessoas reconhecem, com mais serenidade do que o medo e mais clareza do que o boato.

Médicos, professores, líderes religiosos, sobas, radialistas, jornalistas, influenciadores, autoridades locais e pessoas de confiança nos bairros podem ser tão importantes como qualquer nota oficial. Não para substituir o Estado, mas para ampliar a confiança pública. Em momentos de pânico, a mensagem certa precisa da voz certa.

Também vale a pena cuidar do tom. A boa comunicação não humilha quem tem medo. Aproxima-se. Explica sem gozar, corrige sem arrogância, acolhe a ansiedade sem validar a mentira. O medo pode ser sincero e, ainda assim, estar errado. Mas nenhuma crença, nenhuma suspeita e nenhum susto dão a alguém o direito de perseguir ou agredir outro cidadão. Talvez a linha mais simples seja também a mais necessária: medo não é prova, boato não é justiça, linchamento é crime.

A boa comunicação não humilha quem tem medo. Aproxima-se. Explica sem gozar, corrige sem arrogância, acolhe a ansiedade sem validar a mentira

Este episódio deve servir de alerta para além do caso concreto. Hoje é este boato. Amanhã poderá ser outro: uma vacina, uma doença, uma falência, uma acusação contra uma empresa, uma comunidade, uma escola ou uma instituição. O mecanismo é quase sempre o mesmo: uma informação duvidosa encontra ansiedade; a ansiedade encontra velocidade; a velocidade encontra multidão; e a multidão procura um culpado.

É nesse momento que a comunicação deve chegar antes da pedra. Não para maquilhar a realidade. Não para proteger reputações artificiais. Mas para proteger pessoas, orientar comportamentos e defender a confiança pública. Porque quando um boato começa a matar, deixa de ser apenas boato. Torna-se uma emergência de confiança, segurança e humanidade.

Nota: As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não vinculam clientes ou parceiros.