Existem, em África, “várias indicações de crescimento do PIB que não são acompanhadas de qualidade”, já que o continente continua a ter uma estrutura económica que é baseada em exportações de matérias-primas sem transformação, afirmou o economista guineense Carlos Lopes.
Orador nesta segunda-feira, 15, em Luanda, do fórum ‘Pensar Global’, o ex-secretário-geral adjunto da ONU disse que é uma realidade transversal a muitos Estados africanos medirem o crescimento do Produto Interno Brito, sem avaliar a qualidade ou a transformação.
“Para vos dar os dados muito claros sobre o que isso representa macroeconomicamente: 80% das exportações africanas são de matérias-primas, sendo que 60% são de produtos fósseis. E sabemos, por exemplo, que a mineração corresponde a cerca de 1% do emprego formal da África”, elucidou.
O professor na Mandela School of Public Governance da Universidade de Cape Town referiu que a área extractiva africana é um terreno “muito propício” para apropriação de capital sem transformação, para quem se trata de uma característica que contribui para uma falta de qualidade, para um crescimento, mas sem qualidade.
No evento que decorreu sob o lema ‘África e Mundo – Repensar a Relação Actual e Redefinir o Futuro’, Carlos Lopes apontou outras características que traduzem um quadro crítico do continente, como o coeficiente Gini, que mede as desigualdades, e que revela que África detém um dos índices mais elevados do mundo, apenas superada pela América Latina.
“Há uma corrupção distributiva e há uma corrupção exclusiva. A corrupção distributiva é aquela que, apesar de não contribuir para uma transformação estrutural das economias, ela permite, de qualquer forma, uma certa apropriação mais democrática, que é o caso de muitos países asiáticos. Em África, temos uma corrupção que é tendencialmente muito exclusiva, ou seja, que as elites beneficiam e o resto da população vê passar”, denunciou.
O orador principal da edição de estreia do espaço de reflexão ‘Pensar Global’ disse que, face ao exposto, existe no continente uma tendência para se preservar por parte das elites um modelo extractivo que corresponda àquilo que os parceiros económicos preferem: um quadro que permite que a transferência principal do capital seja feita para fora do continente.














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