Angola integra o grupo de países da África Austral mais expostos ao risco de seca associado a uma nova fase do fenómeno El Niño, que poderá desenvolver-se nas próximas semanas e comprometer a produção agrícola e a segurança alimentar em várias regiões do mundo, alerta a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Segundo a FAO, os riscos mais elevados concentram-se no Sahel, na África Austral, no sul e sudeste da Ásia, no Corredor Seco da América Central e no Caribe, onde algumas zonas agrícolas e de pastagens enfrentam mais de 50% de probabilidade de seca nos próximos meses.
Na África Austral, avança a organização, a previsão aponta para uma probabilidade superior a 50% de seca agrícola em várias áreas, com impacto potencial sobre grande parte da Namíbia e do Botswana, estendendo-se a Angola, Zâmbia, Zimbábue, África do Sul e partes de Moçambique e Madagáscar.
A FAO recorda que o ciclo mais recente do El Niño trouxe a pior seca para a região em mais de um século, deixando 61 milhões de pessoas a necessitar de assistência humanitária. O fenómeno exerceu pressão sobre o gado, os sistemas hídricos e as pastagens, e levou mais de 8 milhões de pessoas à insegurança alimentar. “Numa região onde o gado sustenta tanto a segurança alimentar quanto a riqueza familiar, a perda de pastagens rapidamente se transforma em perda de bens e património”, sublinha.
A análise mostra ainda que os impactos do El Niño tendem a afectar de forma recorrente as mesmas regiões, provocando quebras de colheitas, perda de gado, aumento do endividamento e deslocações populacionais em busca de alimento e água. Em 2015-2016, por exemplo, mais de 60 milhões de pessoas foram afectadas globalmente pelo fenómeno, com pedidos de ajuda humanitária superiores a 5 mil milhões de dólares em 23 países.
A FAO alerta que mais de 80% dos impactos da seca na agricultura ocorrem em países de baixo e médio rendimento, onde a capacidade de adaptação é limitada.
No Sahel, a insegurança alimentar tem-se agravado de forma contínua, enquanto conflitos dificultam continuam a deslocar pessoas e a limitar o acesso às comunidades vulneráveis. Os mapas da FAO apontam para uma ampla faixa de seca agrícola que se estende do Senegal e do sul da Mauritânia, passando pela Costa do Marfim, Gana, Togo, Benim e Nigéria, e a leste até a Etiópia e o Sudão.
Na América Central e no Caribe, a FAO alerta que os riscos de seca podem traduzir-se rapidamente em crises alimentares. As previsões indicam para uma probabilidade de 70% de chuvas abaixo da média em toda a região. O risco de seca agrícola é maior ao longo do Corredor Seco, na Colômbia e na Venezuela, e em Cuba, na República Dominicana e no Haiti.
Na Ásia, a possível redução das chuvas pode afectar culturas estratégicas como arroz e milho, com impacto potencial nos mercados globais de alimentos. O risco de seca agrícola se estende do Paquistão e da Índia até Mianmar, Tailândia, Camboja e Vietnã, e mais a leste, incluindo Filipinas, Indonésia e Timor-Leste.
Perante este cenário, a FAO e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) lançaram um apelo conjunto de cerca de 202 milhões de dólares para financiar medidas preventivas em 22 países considerados de alto risco, com o objectivo de proteger cerca de 8,8 milhões de pessoas. Entre as acções previstas estão o apoio antecipado a agricultores e pastores, assistência financeira preventiva e o reforço dos sistemas de alerta precoce.















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