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Moçambique: Inundações 'encolhem' previsões económicas e deixam 2026 numa incerteza

Hermenegildo Langa
27/1/2026
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Foto:
DR

As cheias e inundações que acontecem em Moçambique desde o início do mês, poderão obrigar o Executivo a reajustar ainda mais as previsões macroeconómicas para este ano.

Até meados do ano passado, Moçambique projectava para 2026, um ano económico “risonho ou promissor” ancorado em grande parte pela retoma dos grandes investimentos, sobretudo os do gás natural. No entanto, esta expectativa foi-se corroendo muito antes de iniciar o novo ano, obrigando em Novembro, um mês antes do fim de 2025, a revisão em baixa do Plano Económico Social e Orçamento do Estado - PESOE para 2026 após o enfraquecimento da economia no primeiro semestre, mantendo as projecções de crescimento em 3,2%. Contudo, o ano de 2026 arrancou e, com outros problemas: as inundações. A avaliar pelos impactos, a situação poderá contrair ainda mais as previsões macroeconómicas.

O balanço das inundações provocadas pelas chuvas fortes que caem em Moçambique desde Dezembro passado é ainda provisório, pois a época chuvosa vai até finais de Março. Ainda assim, já deixaram as previsões macroeconómicas para este ano numa espécie de “banho-maria”, uma situação que poderá obrigar o Executivo a reajustar ainda mais.

É uma situação associada à época chuvosa que iniciou em Outubro passado e à intensificação de fenómenos climáticos extremos, mas que está a gerar impactos económicos, infra-estruturais relevantes e claro, humanitários, reacendendo o debate sobre resiliência climática, planeamento urbano e sustentabilidade das finanças públicas.

Ao todo são mais de cinco mil infra-estruturas destruídas pelas cheias e inundações, com destaque para 251 escolas afectadas com 159 salas totalmente destruídas e 2 879 casas parcialmente destruídas, 757 totalmente destruídas e 71 560 inundadas. Destes dados, acrescem ainda, até ao momento, 165 841 hectares de área agrícola afectados, dos quais 73 695 hectares estão considerados como totalmente perdidos, atingindo 111 535 agricultores, segundo o relatório mais recentes do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).

As cheias causaram igualmente danos significativos nas infra-estruturas rodoviárias, com a destruição de cerca de 150 quilómetros de estradas e mais de dois mil quilómetros afectados, apresentando vários troços intransitáveis. As inundações já provocaram igualmente prejuízos avaliados em 313 milhões de meticais (4,9 milhões de dólares), segundo dados avançados pela estatal Electricidade de Moçambique (EDM).

Dados das Nações Unidas indicam que as cheias danificaram mais de cinco mil quilómetros de estradas em nove províncias de Moçambique, o que agrava a situação humanitária já marcada por mortes, deslocação de populações e fortes constrangimentos à circulação de pessoas e mercadorias.

De acordo com a Segunda Comissão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ECOFIN), entre as infra-estruturas afectadas encontra-se a Estrada Nacional Número 1 (N1), principal eixo rodoviário que liga a capital, Maputo, ao resto do país, actualmente intransitável em vários troços, entre eles, vias secundárias e terciárias, dificultando o escoamento de produtos agrícolas e o acesso a mercados, com impacto directo sobre rendimentos das famílias e actividade económica local.

Apesar de serem dados provisórios, o cenário é considerado ainda alarmante a avaliar pelo número de pessoas afectadas. Só nas províncias de Gaza e Maputo, bem como na Cidade de Maputo (Sul de Moçambique), de acordo com a informação mais recente avançada pelo porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, estima-se que já foram resgatadas 19 254 pessoas que estavam sitiadas em zonas afectadas, sendo 11 693 na província de Maputo e 7 561 resgatadas em Gaza.

Face à situação, o Governo moçambicano admite que o país está sob uma catástrofe humanitária, com cerca de 54 mil pessoas em centros de acomodação e cerca de 700 mil afectadas, cerca de 630 mil das quais devido às cheias e inundações, em quase todo o território nacional. “Sim, podemos dizer que estamos perante uma catástrofe”, assumiu o porta-voz do Governo.

Para além do impacto social imediato, o actual quadro climático começa a traduzir-se em custos económicos relevantes para o Estado. A resposta de emergência, a reabilitação de infra-estruturas e o apoio às populações afectadas implicam despesa pública não planeada, num momento em que o espaço fiscal permanece limitado.

Numa primeira avaliação, o Governo disse necessitar de cerca de 6,6 mil milhões de meticais (102,3 milhões de dólares) adicionais para responder de forma plena à actual época chuvosa, de um total de 14 mil milhões de meticais (217,1 milhões de dólares) estimados como necessários para garantir assistência humanitária, apoio aos deslocados, serviços de saúde e alimentação nos centros de acomodação em todo o país. Para economistas são impactos que poderão erosionar ganhos económicos do país que ainda se ressente dos choques anteriores.

Abandono da trajectória de abrandamento da inflação

Para  os economistas moçambicanos, um dos cenários que se antevê de imediato é a subida global dos preços dos produtos sobretudo básicos, pois as cheias provocaram a destruição das poupanças e do património de pessoas  e consequentemente a forte redução da provisão de alimentos.

À Revista Economia & Mercado (E&M), o economista Firmino Chirrime considera que as inundações severas nas regiões Centro e Sul introduzem um choque climático adverso, com impactos directos e indirectos sobre o crescimento, inflação, contas públicas e bem-estar social. O economista esclarece ainda que “a perda de colheitas e destruição de vias de acesso vão impactar na redução da oferta de alimentos, aumento de custos logísticos, pressionando no curto prazo a inflação alimentar, sobretudo cereais e hortícolas e produtos básicos”.

Ainda assim, Firmino Chirrime assinala que as inundações representam um choque macroeconómico significativo, mas gerível. Por isso, “uma resposta coordenada e orientada por evidência pode limitar perdas de crescimento em 2026, proteger os mais vulneráveis, criar bases para uma economia mais resiliente ao clima. A integração do risco climático na política económica deixa de ser opcional e passa a ser central para a estabilidade macroeconómica de Moçambique.”

Contudo, a consultora britânica Oxford Economics já havia antecipado este cenário. Numa análise divulgada recentemente (em Janeiro), a consultora afirmou que a inflação em Moçambique deverá abandonar a trajectória de abrandamento registada em 2025 e retomar uma dinâmica ascendente a partir de 2026, pressionada por factores cambiais, fiscais e estruturais. “A inflação média poderá situar-se em 4,8% este ano, antes de acelerar para 8,4% em 2027, num cenário marcado pela retoma dos projectos de gás natural liquefeito, pela escassez de divisas e por ajustamentos esperados no valor do metical”, refere a Oxford Economics.

Para a Oxford Economics, no curto prazo, a inflação deverá manter-se relativamente contida no primeiro trimestre de 2026, beneficiando da estabilidade cambial recente e da manutenção de taxas de juro reais elevadas por parte do Banco de Moçambique (BdM). Contudo, este equilíbrio é visto como frágil, pois “a actual trajectória não incorpora ainda choques adicionais associados às cheias e perdas agrícolas recentemente registadas no país, factores que poderão exercer pressão adicional sobre os preços dos alimentos ao longo do ano”.

Mais reajuste às previsões económicas, ou nem por isso?

Para este ano, o Executivo moçambicano havia aprovado um Orçamento do Estado (OE) estimado em 535 mil milhões de meticais, equivalente a quase 8,3 mil milhões de dólares. Segundo o Governo, este orçamento, com défice de cerca de 113 mil milhões de meticais está ancorado com o contributo das receitas dos projectos de gás natural.

Entretanto, embora o país seja ciclicamente afectado pelos desastres naturais (inundações e ciclones) que coincide sobretudo com a época chuvosa (de Outubro do ano anterior a Março do ano seguinte), tudo indica que as previsões do Governo estavam longe do cenário actual.

De acordo com o PESOE – 2026, os investimentos deverão influenciar o crescimento da economia em 3,2%. Esta estimativa representa uma ligeira aceleração face aos 2,9% previstos para 2025 e aos 2,2% registados em 2024, anos marcados por alguma instabilidade política. Em 2023, o crescimento económico foi de 5%.

No quadro macroeconómico do orçamento para 2026, prevê-se uma taxa de inflação de 3,7%, inferior aos 7% projectados para 2025 e aos 3,2% registados em 2024.

Perante a actual situação de crise humanitária, o economista Clésio Foia diz ser inevitável o novo reajuste das projecções macroeconómicas, lembrando que o actual contexto de cheias e inundações representa “um choque económico relevante” num momento em que a economia nacional ainda se encontrava em fase de recuperação frágil. Trata-se de um choque de natureza climática, mas com repercussões económicas amplas, que se manifestam de forma imediata e, sobretudo, de forma desfasada ao longo de 2026.

“Do ponto de vista macroeconómico, as previsões de crescimento real do Produto Interno Bruto para 2026 enfrentam riscos significativos de revisão em baixa. Estas projecções já incorporavam um cenário de crescimento moderado, condicionado por constrangimentos estruturais, limitações fiscais e pelos efeitos remanescentes das tensões políticas e sociais observadas após o processo eleitoral de 2024. As inundações surgem, assim, como um factor que adiciona para comprometer o desempenho de vários sectores-chave da economia”, afirma Clésio Foia.

Na sua análise, Foia lembra que os impactos das cheias operam em cadeia. “Num primeiro momento, observa-se a destruição de infra-estruturas económicas e sociais, a interrupção de vias de acesso estratégicas e a paralisação parcial ou total da actividade produtiva em zonas afectadas. Estes choques iniciais traduzem-se rapidamente em custos acrescidos de transporte e logística, ruptura de cadeias de abastecimento, atrasos no escoamento da produção agrícola em inventário, uma vez que uma parte desta produção encontra perdida devido as inundações dos campos agrícolas, e industrial e dificuldades no abastecimento regular dos mercados”.