O Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Nacional de Angola (BNA) encerrou o ano de 2025 com um balanço de prudência extrema e medidas graduais, num delicado exercício de equilíbrio entre relançar o crédito à economia e não despertar os fantasmas da inflação e da desvalorização cambial.
Ao longo de cinco reuniões, a autoridade monetária, liderada por Manuel Tiago Dias, efectuou apenas dois cortes na sua taxa de juro directora (Taxa BNA), totalizando uma descida de 100 pontos base, de 19,5% para 18,5%.
Contudo, a história monetária do ano não se escreveu apenas nas taxas de juro. Foi através de sucessivos cortes no Coeficiente de Reservas Obrigatórias, de 21% para 18%, que o BNA libertou cerca de 100 mil milhões de kwanzas no sistema bancário, numa estratégia paralela para baixar as taxas de juro de mercado e estimular o financiamento sem desencadear alarmes inflacionistas.
O ano começou com o pé no travão. Nas primeiras quatro reuniões do CPM, a taxa BNA manteve-se inalterada nos 19,5%. O fantasma da inflação, que terminou 2024 nos 27,5%, ainda assombrava os corredores do banco central. A primeira movimentação deu-se não na taxa directora, mas na Facilidade Permanente de Absorção de Liquidez, um instrumento que funciona como um depósito que os bancos comerciais podem fazer junto do BNA, remunerado a uma taxa que estabelece o piso mínimo para os juros do mercado interbancário, que foi reduzida de 18,5% para 17,5%, um sinal subtil de que o BNA começava a apertar o cerco aos excessos de liquidez sem estrangular o mercado.
Foi apenas na reunião de Setembro que o CPM, confiante na 13ª queda consecutiva da inflação (que chegou a 18,88% em Agosto), apertou o gatilho do primeiro corte generalizado; 50 pontos base em todas as taxas de política, incluindo a Taxa BNA, que caiu para 19%. O movimento repetiu-se em Novembro com um novo corte de 50 pontos base, colocando a taxa directora em 18,5%.
Paralelamente, o banco central manteve inalterada a Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez, o mecanismo de empréstimo do BNA aos bancos comerciais, cuja taxa define o tecto máximo para as operações no mercado interbancário, nos 20,5%, mantendo assim um limite superior para as taxas de financiamento.
Enquanto os holofotes estavam sobre as taxas de juro, a ferramenta mais activa do BNA foi a redução do Coeficiente de Reservas Obrigatórias em moeda nacional. Esta manobra, menos visível ao público em geral, visa obrigar os bancos comerciais a manterem menos dinheiro parado nos cofres do BNA, libertando-o para empréstimos à economia.
"Esta medida visa libertar liquidez... com vista a situar as taxas do mercado monetário interbancário em torno da taxa directora", justificou o CPM na sua primeira reunião do ano. O objectivo declarado era "influenciar a redução das taxas de juro no mercado interbancário e estimular o financiamento ao sector real da economia".
Os dados de Outubro de 2025 mostram que o stock de crédito à economia em moeda nacional atingiu 7,06 biliões de Kwanzas. Este é o sinal claro de que a liquidez libertada pelo BNA começou a escorrer para a economia, aquecendo o investimento e o consumo das famílias.
No entanto, esta política tem um custo oculto. Wilson Chimoco, economista contactado para esta análise, alerta que a descida dos juros "pode sim penalizar a capacidade do Estado se financiar". Com taxas mais baixas, os títulos da dívida pública tornam-se menos atractivos para os investidores, podendo complicar o financiamento do défice orçamental, projectado para 2,8% do PIB pelo FMI.
Para o economista Wilson Chimoco, a actuação do BNA em 2025 foi coerente, mas excessivamente cautelosa. "Penso que o BNA fez o possível. Conseguiu dar alguma coerência às decisões, embora tenha sentido uma reduzida coragem para fazer mais", afirmou.
O economista defende que a instituição deve, no futuro, "fazer uso da sua condição de instituição independente e orientar as expectativas dos operadores, através de uma proactividade na divulgação de informação". Uma comunicação mais clara e antecipada, na sua opinião, seria crucial para ancorar as expectativas do mercado e ganhar margem de manobra.
O grande sucesso de 2025, a descida da inflação, está intimamente ligado ao maior risco para 2026. Wilson Chimoco é perentório, "o grande desafio estará na estabilidade cambial. Os ajustes da política monetária de 2025 justificam-se porque a taxa de câmbio se manteve fixa, o que trouxe a inflação para os actuais níveis".
E o aviso é, "num contexto de maior instabilidade cambial, certamente que a inflação há-de se situar acima dos 20%". Este é o limite invisível que condicionará todas as decisões do CPM no próximo ano.
Se a estabilidade do kwanza se mantiver, o caminho para um afrouxamento monetário mais ousado está traçado. Wilson Chimoco projecta que, "se as perspectivas de inflação para 2026 se materializarem, então o BNA deverá realizar cortes de até 400 pontos base", uma descida quatro vezes superior à de 2025.
O BNA projecta uma inflação de 13,5% para 2026, um número que, se confirmado, dará amplo espaço para manobras. Num contexto global de incerteza, porém, a margem de erro é mínima. A gestão de 2025 mostrou um BNA confiante na trajectória da inflação, mas consciente de que o seu principal trunfo é também o seu calcanhar de Aquiles.

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