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Será a Unitel a primeira “bolha” da BODIVA? Entenda o risco do “Pop and Drop” na maior OPV de sempre

Adnardo Barros
20/8/2026
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A entrada histórica da Unitel na BODIVA encerra a “hegemonia do sistema financeiro” e abre o sector das telecomunicações ao mercado, mas a dispersão das acções traz alertas sérios aos investidores.

A maior operadora de telecomunicações do país, a Unitel, estreou-se na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) com a venda de 15% do capital social até então detido pelo Estado, através do IGAPE. A operação resultou na dispersão de 7,5 milhões de acções ao preço final de 40 040 Kz por título.

O resultado foi um encaixe histórico de 300 mil milhões Kz, consolidando-se como a maior operação desde a abertura do mercado de acções angolano em 2022, destronando o recorde anterior de 220,9 mil milhões Kz detido pelo Banco de Fomento Angola (BFA).

Ao fixar o preço final em 40 040 Kz por acção, o mercado avaliou a totalidade da Unitel em 2 biliões Kz. Confrontado este valor de mercado com os resultados líquidos: a operadora estreou-se na BODIVA com um rácio Preço/Lucro (P/E) de 12,6 vezes. Na prática, um investidor precisará de quase treze anos para recuperar o capital investido apenas por via dos lucros gerados.

Sozinha, a Unitel arrecadou quase quatro vezes a soma de todas as OPV anteriores (BAI, BCGA, ENSA e BODIVA), que juntas totalizaram 76,5 mil milhões Kz. Em apenas quatro anos, o tecto do mercado accionista saltou de uma OPV inaugural de 40 mil milhões Kz para os actuais 300 mil milhões Kz, um valor 7,5 vezes superior. Com mais de 21 milhões de assinantes, a entrada da gigante, controlada pelo Estado desde 2022 após a nacionalização das participações de Isabel dos Santos, quebra o paradigma de um mercado de capitais que, até agora, funcionava como quase um “clube de bancos”.

O “efeito BFA” no lucro e o silêncio dos futuros dividendos

Em 2025, a Unitel registou um lucro líquido de 158,4 mil milhões Kz, um crescimento de 59% face aos 99 mil milhões Kz de 2024. A trajectória dos lucros nos últimos três anos impressiona, tendo-se multiplicado por 4,5 vezes desde os 35 mil milhões Kz contabilizados em 2023.

Contudo, o motor deste resultado não foi puramente operacional. Os proveitos não operacionais foram catapultados por ganhos extraordinários de 220,8 mil milhões Kz decorrentes do processo de privatização do BFA. Na prática, em 2025, a Unitel gerou mais valor com a alienação de activo bancário do que com o seu próprio core business.

Ainda assim, a eficiência operacional registou melhorias. Os resultados operacionais quase quadruplicaram (um salto de 288%) e fixaram-se nos 66 mil milhões Kz, impulsionados por um crescimento de 31% nos proveitos operacionais, que atingiram 505 mil milhões Kz. Segundo o prospecto da empresa, o aumento de receitas foi sustentado por um ajustamento de 25% nas tarifas e pela expansão da base de clientes, que ganhou 746 mil novos utilizadores, consolidando uma quota de mercado de 76%. No capítulo do investimento, a Unitel retraiu o Capex em 17%, ao passar de 183,6 mil milhões Kz em 2024 para 152,1 mil milhões Kz no fecho do exercício em 2025.

O risco do “Post-IPO Pop and Drop”

A dinâmica recente do mercado secundário da BODIVA, especialmente com os históricos do BAI e do BFA, deixa um aviso aos novos accionistas da Unitel. O mercado de capitais tem sido propenso ao fenómeno que os analistas internacionais designam por “Post-IPO Pop and Drop”.

A forte efervescência inicial e a escassez de papel geram um “Pop”, uma valorização do preço no mercado secundário. Um momento em que investidores de curto prazo aproveitam a valorização artificial, desfazem-se das suas posições no topo para realizar mais-valias rápidas (profit-taking) e deixam o activo numa espécie de “bolha” local.

O problema surge no “Drop”. Após o pico, o mercado esgota os compradores dispostos a pagar preços inflacionados. O activo entra numa armadilha de iliquidez. Sem compradores para garantir a rotação dos títulos, os investidores remanescentes perdem a capacidade de sair da posição e são obrigados a transformar-se em “Yield Chasers” (caçadores de rendimento), restando-lhes apenas aguardar os dividendos.

Se nas operações anteriores os dividendos serviram de almofada para amortecer a falta de liquidez, na Unitel o cenário é mais incerto. Entre 2021 e 2025, a operadora distribuiu um acumulado de 165,5 mil milhões Kz em dividendos, o que funcionou como o principal chamariz financeiro durante o período de subscrição. No entanto, no prospecto oficial da OPV, a administração avisa que não foi fixada qualquer política de distribuição de dividendos para os próximos anos.

A omissão do rácio de distribuição (payout) traduz uma postura defensiva da equipa de gestão, ciente de que o lucro extraordinário de 2025 foi inflacionado pela venda do BFA. Se o mercado secundário “secar” e a empresa optar por reter lucros para investimentos futuros, os investidores que compraram no topo da valorização arriscam-se a ficar presos a um activo sem liquidez e sem o retorno imediato dos dividendos.

Endiama, SBA e Nova Cimangola lideram a nova vaga de OPI

Concluída a privatização parcial da Unitel, os holofotes do mercado e da Comissão Interministerial do Programa de Privatizações (PROPRIV) viram-se agora para as restantes “jóias da coroa” do Estado angolano.

Sob as directrizes da mais recente actualização do programa (Decreto Presidencial n.º 36/26), e com a Sonangol, temporariamente fora do horizonte de curto prazo, excluída do calendário até 2026 para permitir uma reestruturação estrutural mais profunda, a Endiama, o Standard Bank Angola (SBA) e a Nova Cimangola emergem como os alvos prioritários.

A Endiama passa a carregar a bandeira do sector extractivo no PROPRIV. Detida a 100% pelo Estado, a estratégia prevê a dispersão em bolsa de uma posição minoritária. Na ausência da Sonangol, a mineira de diamantes será o verdadeiro teste de fogo ao apetite dos grandes fundos de investimento internacionais pelo “risco-Angola”.

No xadrez bancário, a operação mais aguardada foca-se no Standard Bank Angola, onde o Estado detém 34% sob a tutela do IGAPE. A fechar o trio imediato está a cimenteira Nova Cimangola, na qual o Executivo detém uma participação indirecta de 28,13%.