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A Inteligência Humana e a Inteligência Artificial

Carlos de Melo
30/6/2026
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Foto:
DR

O ecossistema nacional de Tecnologias de Informação vai fazendo o percurso da inovação com reconhecido sucesso, mas é preciso olhar mais além.

Anda toda a gente, empresas, instituições do Estado e cidadãos, entusiasmada com a Inteligência Artificial (IA). Uns movidos pela paixão do ofício e, por essa razão, um pouco mais à frente na discussão e apresentação de soluções que a envolvam; outros como espectadores atentos ao vertiginoso progresso tecnológico que vamos vivendo; e ainda aqueles que falam do assunto para não ficarem mal na fotografia e darem de si próprios uma imagem de perfil moderno e evoluído. Um pouco como, há dez anos, se falava da Cloud, sem muita gente perceber bem o que isso era e o que implicava, apesar de, já na altura, grande parte das pessoas ter contas Yahoo, Google, etc. Assim foi também com os telemóveis ou com o simples acesso à Internet. Enfim, voltam a registar-se os medos e as delícias do que aí vem.

É ponto assente que a IA não só já é uma realidade como vai ser um gerador de desenvolvimento em todas as áreas. Curiosamente, ainda não se ouviu dizer que é um factor para a “diversificação da economia”, o que tem o condão de aliviar a pressão exercida pela repetição da expressão mas, paradoxalmente, trazer a preocupação de que não se está a ver bem o “filme” e o impacto que a IA terá.

A bandeira da inovação tem vindo a ser levada, e bem, pelas empresas do sector das Tecnologias de Informação, como seria de esperar, e por instituições a ela ligadas, por força da sua missão e área de actuação, como sejam a Banca e os Petróleos. Esta actividade tem vindo a ser enquadrada pelo Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social (MINTTICS), com iniciativas genéricas reactivas, como a proposta de Lei sobre a Inteligência Artificial, ainda em consulta pública.

É necessário, no entanto, que o ecossistema onde se move a Inteligência Artificial seja mais abrangente, o que requer gente qualificada para fazer a diferença. Não basta que as empresas de tecnologia trabalhem em soluções

onde a IA é central na arquitectura dos sistemas, sejam estes de grande porte ou não. Também não nos chega que se vá falando disso em conferências ou artigos como este. Esta maior abrangência só se verificará à medida que formos tendo mais quadros que possam não só tirar partido da IA como elevá-la ao estatuto de peça fundamental no desenho de soluções onde o factor humano possa ser substituído por algoritmos mais assertivos e fiáveis.

Curiosamente, no Plano “Angola - Estratégia de Longo Prazo 2050”, a IA é apenas mencionada cinco vezes e meramente como um instrumento de apoio a soluções para a Justiça, para a Defesa e para as Finanças (AGT), e como parte do compromisso do Governo para a “criação das condições que permitam o florescimento de um ecossistema para as tecnologias de informação economicamente equilibrado e sustentável para atrair investimento privado, necessário para a implementação das novas vagas tecnológicas, como o metaverso, 5G e inteligência artificial”, como seria de esperar. A Educação não merece essa menção, nem tão-pouco a Agricultura ou a Saúde.

Esta observação, ainda que inquinada, reconheço, reforça o que temos vindo a dizer: a educação é o parente pobre. A razão de ser deste facto, e já vamos a caminho do nosso 51.º aniversário, é que é um valor não palpável. As soluções rápidas e emergenciais que o País vem implementando ao longo da sua existência tendem a ser em infra-estruturas, produtivas ou não. O investimento nas pessoas é mais penoso porque é mais demorado, mais atomizado e, por isso, mais difícil de fazer. Não se colhem frutos no imediato e há sempre a ânsia de o País não poder esperar. Então, as preocupações com a formação das pessoas passam para o último patamar do ensino, que é a Universidade. Condensa-se em cinco ou seis anos a expectativa de bons resultados quando, na verdade, um bom quadro, e um bom cidadão, demora 15 ou 20 anos a formar. É necessária paciência, saber esperar para que as coisas aconteçam, parafraseando o Eng.º José Gualberto de Matos, ainda que noutro contexto.

Vejo pessoas de grande reputação afirmarem que os quadros angolanos são tão bons ou melhores do que os de outros países. E são. Alguns. Que a nossa juventude é dinâmica e empreendedora. E é, a que teve acesso a um ensino de alguma qualidade e que está urbanizada. Mas isso não resolve o problema da larga maioria que não tem hipótese de ter um bom ensino, nem de conseguir ter um bom emprego ou de se auto-empregar. Não é

difícil constatar a falta de oportunidades que grassa na maioria da juventude, nem os milhões de jovens fora do sistema de ensino.

Onde quero chegar é aqui: problemas temos muitos, dificuldades também. Que fazer? Que priorizar? Certamente a Educação, a partir do pré-escolar, com programas integrados, com foco nos educadores e não apenas na estrutura física que, sendo importante, não é o único factor de sucesso. Mas temos de começar já.

Enquanto isso, teremos de viver. Teremos de desenvolver soluções, como temos vindo a fazer, que permitam que acompanhemos e adoptemos algumas das soluções disponíveis no mundo da ciência e da tecnologia, de onde a Inteligência Artificial é uma delas, com cada vez maior destaque.

Um factor que nos poderia ajudar a mitigar o problema, ainda que a médio prazo, sobre o qual quase nada se tem falado, é o controlo do chamado brain drain.

A fuga de quadros qualificados tem sido um fenómeno pouco estudado. As respostas rápidas ao “porquê” são fáceis de dar e podem resumir-se a uma: procura de melhores condições de vida para quem procura outras paragens e para a sua família.

Portanto, não só não temos quadros suficientes e com qualificação elevada, como alguns deles tomam a decisão de emigrar, levando consigo o investimento que o País fez neles ao longo de muitos anos. É urgente estudar este fenómeno e depois enquadrar políticas que possam reter estes quadros no País ou, pelo menos, fazer com que eles prestem serviço ao país, seja ligados a empresas instaladas em Angola, seja reinvestindo no País.

Talvez se deva até colocar a questão de como fazer para que os quadros emigrados, muitos deles formados também fora, regressem ao País. Como atraí-los? Como converter o Brain Drain em Brain Gain? É outro assunto de que não se tem falado e que se assume como uma fatalidade sem solução. Valeria a pena que se olhasse para este problema com outros olhos, que se fizessem estudos sérios, com a ajuda e integração da Academia, e que se conseguissem soluções.

Mas é, de facto, na Educação que o país se pode diferenciar a médio e longo prazo, investimento que tarda em acontecer, ainda que haja, de quando em vez, boas notícias. Pelo menos duas, mais ou menos recentes:

• Uma é que foi criado, há já alguns anos, o INAAREES que, ao que nos é dado ver, tem procurado garantir uma qualidade mínima de ensino nas nossas universidades. A quantidade de cursos encerrados nos últimos anos não é um bom indicador para o estado da Educação, designadamente do Ensino Superior. Mas é positivo constatar que este órgão está activo e atento.

• Outra boa notícia é a cada vez maior projecção das questões ligadas ao chamado Capital Humano enquanto factor de desenvolvimento. A capacitação das pessoas deixou de ser apenas uma tarefa, chamemos-lhe assim, das instituições e das empresas para passar a ser também uma decisão política, o que tem muita importância, ainda que possa não trazer resultados palpáveis no imediato.

Em resumo, cabe ao Ensino o papel fundamental de garantir que se prepare a juventude para, a médio e longo prazo, constituir massa crítica que permita dar um salto evolutivo na pesquisa e desenvolvimento. A Inteligência Artificial, enquanto ciência ou campo de estudo, tal como outras, ou como ferramenta ou serviço, terá um papel fundamental como agente dessa transformação.

O ecossistema nacional de Tecnologias de Informação vai fazendo o percurso da inovação com reconhecido sucesso, mas é preciso olhar mais além. São desenhadas todos os dias soluções específicas que usam a IA como agente acelerador de tomada de decisão mais assertiva e tempestiva. A tendência será que essa tomada de decisão se torne o factor humano determinante num mundo onde o universo de dados disponíveis para análise cresce exponencialmente e onde o tempo para os analisar é um elemento vital de desenvolvimento e, por vezes, de sobrevivência. É preciso agregar cada vez mais elementos a este ecossistema e torná-lo mais robusto e inovador. A melhoria das soluções com base na Inteligência Artificial e a sua expansão para todas as áreas de actividade ocorrerão tanto mais rapidamente quanto mais cedo se investir na Inteligência Humana. Não nos esqueçamos dela.