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AAPAbacate: “O potencial é enorme, mas estamos no início do nosso caminho”

Victória Maviluka
11/6/2026
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Chris Masters, cofundador do Cluster de Abacate das Terras Altas de Angola, fala à E&M sobre a organização do AAPAbacate, e o estágio da produção de abacate no País.

Chris Masters, cofundador do Cluster de Abacate das Terras Altas de Angola, está ligado à organização do AAPAbacate, evento que junta, nesta quinta-feira, 11, em Luanda, produtores e investidores, especialistas e parceiros nacionais e internacionais para discutirem o futuro do abacate em Angola. Em entrevista à revista Economia & Mercado, Chris fala dos passos que estão a ser dados para transformar Angola num importante players de produção de abacate. Diz que o País possui condições naturais propícias para dar esse salto, mas afirma ser necessário tempo e aposta em sementes de qualidade.

O AAPAbacate já vai na 3.ª edição. O que traz de diferente o evento deste ano? 

Este evento é organizado em conjunto pela AAPA, Associação Agropecuária de Angola, e pela AgriHeroes. Está aqui o Zac Bard, presidente da Associação Mundial de Abacates. O  nos leva a organizar este evento é o potencial que o nosso país tem para a cultura do abacate. 

Que potencial és este?

A zona do Planalto Central de Angola, as Terras Altas, aquilo que apresentam, em termos de altitude, clima, espaço físico e recursos hídricos, é algo que, actualmente, a nível global, só existe no nosso País. Sabemos que temos uma janela de produção que nos permite fornecer ao mercado europeu abacate exactamente quando o mercado europeu menos abacate tem. Portanto, é uma oportunidade única que temos como País. Para isso acontecer, as coisas têm de ser feitas de forma coordenada, organizada e extremamente profissional. O mercado europeu é extremamente exigente. É preciso certificações para se poder entrar e exportar para lá. Essas certificações obrigam a que as empresas trabalhem sob princípios e regras universais que permitem garantir que a qualidade do produto atinja os níveis que são necessários para fornecer esse mercado. Neste caso, estamos a falar da Europa, mas também de outros mercados de alto valor. Temos estado a trabalhar muito, nestes últimos anos, para tornar isso uma realidade.

Qual é o retorno desse trabalho?

Estamos a dar os nossos primeiros passos. O caminho ainda é longo, mas, como um ditado africano que todos conhecemos: “Se quer ir rápido, vá sozinho; se quer ir longe, vá em grupo”. 

Perguntava sobre os números da produção nacional de abacate? 

Pouquíssimo! Estamos a falar de meia dúzia de produtores numa fase inicial, com ainda poucos hectares para aquilo que é o potencial do nosso País. Temos que saber que, para fazer as coisas, ainda hoje o Zac Bard, uma pessoa com quase 35 anos de carreira, especialista em desenvolver novas origens, disse uma coisa: “Mais vale a pena começar com 20 hectares de genética de qualidade, do que tentar a correr, fazer 100, 200, 300. As empresas mais experientes de abacate, com décadas de experiência, nunca plantam mais do que 100 hectares num só ano.

O que representa os hectares em produção em termos de abacates comerciais?

Se já disse que é incipiente, e que são poucos hectares, e que são meia dúzia de produtores a fazer, ou pouco mais que meia dúzia de produtores a fazer abacates dos cultivares certo, é porque não há grandes números a serem ditos aqui. O potencial é enorme, mas estamos no início do nosso caminho. Vamos focar, é malembe, malembe, a dar os passos certos, seguros, organizados, profissionais. Daqui a uns anos, a gente chega lá. Este ano, já temos envolvimento crescente de entidades e organizações internacionais, temos pessoas mundo fora a assistir a este evento online; o interesse é crescente, o interesse é real. Mas temos que ser sérios, temos que ser profissionais e temos que saber trabalhar em conjunto para nos posicionarmos como país naquilo que é um mercado global extremamente competitivo e extremamente exigente. 

Como estamos em termos de certificações europeias para produção do abacate?

O ano passado, estivemos em Madrid, em que também estivemos a promover o abacate e o potencial do abacate, do Corredor de Lobito, da Plataforma Logística da Caála. Há uma certificação muito famosa chamada GLOBALG.A.P. Essa certificação é fundamental para entrar nas grandes superfícies da Europa. Sabem quantas empresas o Quénia tem com o GLOBALG.A.P.? 28 mil.E nós só temos 5! Temos um potencial enorme, mas temos que trabalhar, temos que nos organizar, temos que ser extremamente profissionais. Custa muito dinheiro, demora tempo e é preciso querer e fazer com cabeça, tronco e membros. 

Mesmo com essa “produção ínfima”, já se consegue exportar? 

Já há. Antes desta exportação que aconteceu no ano passado, que foi uma exportação de um contentor-piloto via Corredor do Lobito para o Porto de Roterdão, há empresas em Angola que já exportam abacates para outros países. Isso já começou. Mas é um processo, foram empresas pioneiras, extremamente corajosas que tiveram que partir muita pedra para conseguir fazer. Quando falamos de cadeia de valor é necessário haver uma coordenação tanto do sector privado como do Estado, para combater todos os empecilhos que estão a diminuir mas ainda existem nos processos de exportação, nas alfândegas, tudo o que é necessário para que um País se possa posicionar bem. Falamos particularmente do Corredor Lobito e da Plataforma Logística da Caála, e estamos com o apoio do Reino dos Países Baixos, temos o apoio do MINAGRIF, apoio do Ministério dos Transportes. O abacate está aqui a servir um pouco como ponta-de-lança, ou seja, pelo seu potencial e pela sua exigência, porque, ao criarmos a cadeia de frio e as outras etapas necessárias para tornar o abacate um caso de sucesso, estamos também a abrir portas para culturas de outras frutas de valor acrescentado com potencial também de exportação. Não nos vamos esquecer que, não descurando de todo questões de segurança alimentar, precisamos de grãos, precisamos de produzir muita coisa. Então, há passos muito sérios a serem dados por várias entidades profissionais, privadas e do Estado para garantir isso. Estamos a falar de culturas de elevado potencial de exportação, porque é através da exportação que vamos conseguir obter divisas. Portanto, isto faz parte da diversificação da nossa economia e faz tudo parte de uma estratégia macro que está a ser desenvolvida ao mais alto nível.

No ano passado, falou-se de 30 mil milhões de Kz de uma linha de financiamento dos Países Baixos para o fomento da produção de abacate no País. Os produtores têm tido acesso a este financiamento? 

Linhas de financiamento, há muitas. Costumo sempre dizer: o problema não é o dinheiro, o dinheiro existe; o problema é existirem projectos que estejam devidamente estruturados, que cumpram os requisitos necessários a nível de compliance, a nível de organização, a nível de gestão, para conseguir aceder a esses fundos. 

O problema não é o dinheiro, o dinheiro existe; o problema é existirem projectos que estejam devidamente estruturados, que cumpram os requisitos necessários a nível de compliance, a nível de organização, a nível de gestão, para conseguir aceder a esses fundos

Mas os produtores em Angola têm conseguido aceder ao fundo a que me referi? 

Esse fundo em particular, não tenho números concretos para lhe dizer. Sei que, realmente, cada vez mais, as empresas em Angola estão a posicionar-se e a trabalhar de forma organizada e profissional para conseguir aceder a esse e a outros fundos. 

Qual tem sido o principal recurso para financiamento dos produtores de abacate em Angola? 

O principal recurso tem sido aquele que é igual para todos, que é a nossa banca nacional e através do Aviso 10

Como é que estamos em termos de insumos? As condições fitossanitárias…

Tudo isto ainda é um processo. Estamos numa altura a nível global em que as coisas não estão fáceis. A continuidade das guerras, seja na Europa, seja também agora no Médio Oriente, não facilita a vida de ninguém. Está tudo mais caro, o acesso aos insumos está mais dificultado. Os desafios são enormes. Isto realmente não é para os fracos de espírito, mas há que ser feito. O País necessita e merece ter os seus filhos a trabalhar de forma afincada para fazer com que passemos do potencial à potência. 

Qual é o número de trabalhadores que o mercado de produção de abacate absorve?

Dados concretos, ainda não tenho.

É prematuro falar de uma indústria transformadora do abacate?

Não, não é nada prematuro, porque isso já está a acontecer e vai estar a ser também anunciado.

O que é que se está a extrair do abacate na indústria? 

Já há players na província do Huambo a montarem fábricas para o processamento de óleo de abacate. Já há players, também na província do Huambo, viveiristas, a poder fornecer mudas de abacate de genética melhorada. É preciso apostar em genética de qualidade. Tudo isto é feito e desde sempre numa lógica também de integração com a agricultura familiar, ou seja, os agricultores familiares nas zonas circundantes das fazendas-âncora vão estar também a promover a produção de abacate desses produtores, com a garantia de compra dessa produção. Aquilo que tem qualidade para a exportação vai para a exportação, aquilo que não tiver, seja para consumo doméstico ou regional ou então para o processamento do óleo. Estamos a falar de construir uma cadeia de valor e uma indústria estruturada.

Já há players na província do Huambo a montarem fábricas para o processamento de óleo de abacate.

Quais são as regiões de maior produção de abacate a nível nacional? 

Quase todo o nosso País, com excepção das zonas talvez mais áridas, produz abacate. Só que realmente são variedades de abacate que têm quase zero em termos de valor comercial para exportação. Porque a fruta é muito grande e tipicamente o consumidor na Europa ao abrir o abacate quer comê-lo de uma vez. Todos sabemos que se tu abres um abacate grande aquilo passado um pouco está todo escuro e está feio. Ninguém quer isso. O nosso típico abacate tem uma pele fininha que fica todo marcado. O hass, essa variedade preferível, representa 80% do mercado mundial. É mais pequenino, quando se corta, comes de uma vez, tem uma pele mais grossa, protege-o mais, a nível do transporte não fica com nódoas, é muito cremoso, não tem fios. Aquilo que realmente precisamos fazer é focar na produção desse abacate. Não vale a pena a gente produzir o que quer e esperar que os outros comprem.

Face ao tipo de produto que é o abacate, a logística ganha uma importância capital. 

Absolutamente. Sem logística não temos nada. O Governo tem vindo a fazer investimentos avultados e extremamente estratégicos a nível de logística em todo o País. Vejam que, nos últimos anos, os novos portos, novos aeroportos, linhas de ferro, caminhos-de-ferro, plataformas logísticas. A logística é chave. Sem logística, um país não anda para a frente.