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Barreiras estruturais continuam a desafiar Moçambique no contexto do comércio africano

Hermenegildo Langa
22/5/2026
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Foto:
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A falta de eficiência aduaneira, altos custos logísticos, défice de infra-estruturas e imprevisibilidade do ambiente regulatório são entre vários desafios que o país enfrenta.

Moçambique ocupa um lugar estratégico no contexto do comércio africano, devido à sua posição geográfica, aos corredores logísticos, aos portos e à ligação privilegiada entre o hinterland africano, o oceano Índico e os mercados internacionais, devendo posicionar-se como um actor activo da integração regional, num contexto em que a Área de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) assume crescente relevância.

A constatação é da directora da Banca Comercial e de Negócios do Standard Bank Moçambique, Márcia Karim, que defendeu esta quarta-feira, que o país precisa avançar com as reformas estruturais com vista a melhorar a eficiência aduaneira, reduzir custos logísticos, reforçar o sector de infra-estruturas, facilitar o acesso ao financiamento.

“O potencial, por si só, não basta. É preciso enfrentar desafios concretos, tais como melhorar a eficiência aduaneira, reduzir custos logísticos, reforçar o sector de infra-estruturas, facilitar o acesso ao financiamento e criar um ambiente regulatório mais previsível. Estes são precisamente alguns dos factores analisados pelo relatório”, considerou Márcia Karim, durante o lançamento da quinta edição do Barómetro do Comércio Africano, um estudo analítico e comparativo que avalia o ambiente de comércio em África, com enfoque especial nos factores que influenciam o comércio intra-africano e a competitividade das economias do continente.

O estudo abrange dez países africanos, nomeadamente Angola, Gana, Quénia, Moçambique, Namíbia, Nigéria, África do Sul, Tanzânia, Uganda e Zâmbia, e combina dados primários recolhidos junto de 2258 empresas e 30 entrevistas aprofundadas com informações secundárias fornecidas por instituições como o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e bancos centrais, resultando num índice comparativo de 0 a 100 sobre a facilidade e atractividade do comércio em cada país.

Na ocasião, a directora da Banca Comercial e de Negócios do Standard Bank Moçambique, explicou ainda que, através do Barómetro do Comércio Africano, o Banco pretende colmatar a escassez de informação fiável e actualizada sobre o comércio no continente africano, com destaque para Moçambique.

“África precisa de conhecer melhor África para poder comercializar melhor consigo mesma. Durante muito tempo, falámos do potencial do continente com entusiasmo, mas nem sempre com dados suficientes, comparáveis e actualizados. Este estudo procura responder a essa lacuna, oferecendo informação útil para governos, empresas, investidores e decisores”, afirmou Márcia Karim.

Apesar de desafios, há melhorias

O relatório indica que Moçambique melhorou a sua posição no ranking geral do barómetro, passando da terceira para a primeira posição entre os dez países analisados, impulsionado sobretudo pelo desempenho nos indicadores quantitativos relacionados com abertura comercial, estabilidade cambial e comércio externo. Contudo, o país manteve-se na nona posição no índice baseado na percepção das empresas inquiridas, reflectindo desafios persistentes ao nível do acesso ao financiamento, apoio governamental ao comércio e liquidez em moeda estrangeira.

O estudo destaca, igualmente, a estabilidade do metical face ao dólar norte-americano ao longo dos últimos três anos, com uma média de 63,9 meticais por dólar, “factor que contribuiu positivamente para o posicionamento de Moçambique no índice quantitativo”.

No entanto, o relatório alerta que esta estabilidade foi sustentada por algumas medidas do Banco de Moçambique, incluindo o aumento das reservas obrigatórias em moeda estrangeira e a obrigação de conversão de 50% das receitas de exportação para moeda local.

Segundo o relatório, o crescimento económico de Moçambique desacelerou para 0,7% em 2025, face aos 2,1% registados em 2024, apesar do forte aumento do Investimento Directo Estrangeiro, estimado em 6,4 mil milhões de dólares, estando grande parte concentrada em megaprojectos de gás natural liquefeito, cujos efeitos na economia local permanecem limitados devido à reduzida integração com as cadeias de valor nacionais.

Ainda assim, prevê-se uma recuperação gradual da actividade económica, com o crescimento do PIB a atingir 1,1% em 2026, apoiado pela retoma dos investimentos em gás natural, expansão das infra-estruturas logísticas e reforço da integração regional no âmbito da AfCFTA.

O barómetro conclui, também, que o comércio intra-africano continua a ganhar dinamismo, com um aumento da orientação das empresas para mercados africanos e asiáticos, motivado pelo menor custo das importações, maior diversidade de produtos e maior rapidez de resposta. A consciência sobre a AfCFTA aumentou de 45% para 52% entre as empresas inquiridas, após o lançamento oficial da participação de Moçambique no acordo.

Por isso, para Márcia Karim, o relatório afigura-se como uma ferramenta prática de apoio à decisão e à formulação de políticas públicas. “A grande importância deste barómetro está no facto de transformar percepções em evidência. Para reformar, é preciso medir. Para decidir bem, é preciso comparar, e, para melhorar, é preciso saber onde estamos e para onde queremos ir”.