Num contexto de crescente rivalidade entre China e Estados Unidos, Angola poderá enfrentar pressões para se alinhar com um dos blocos, o que exigirá uma diplomacia económica perspicaz e cuidadosa, alerta um estudo recente do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola (CEIC-UCAN).
Sob o tema ‘Cenários de Crescimento da Economia Angolana até 2030 e Impactos sobre o Emprego e a Pobreza’, a pesquisa observa que a diversificação de parceiros comerciais e o reforço da integração regional africana, nomeadamente através da Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), serão fundamentais para preservar a autonomia estratégica do País.
A ascensão da China como potência global, recorda o estudo lançado na semana passada em parceria com a Revista Economia & Mercado, é um dos fenómenos mais marcantes da geopolítica e da economia internacional do século XXI: “Desde as reformas económicas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978, que abriram o país ao investimento estrangeiro e ao comércio internacional, a China tem registado um crescimento económico sem precedentes”.
O relatório destaca o facto de, em apenas quatro décadas, a China ter passado de uma economia agrária e isolada para a segunda maior economia de mundo em termos nominais e a primeira em paridade de poder de compra, um crescimento sustentado por uma combinação de factores: industrialização acelerada, urbanização massiva, investimento em infra-estrutura, forte intervenção estatal e uma política externa orientada para a expansão da influência económica.
Para os investigadores do CEIC, a Iniciativa do Cinturão e Reta (BRI), lançada em 2013, é um exemplo emblemático dessa estratégia, por se tratar de uma rede global de infra-estrutura e comércio que liga a China à Ásia, Europa, África e América Latina, permitindo a Pequim projectar poder económico e político em regiões estratégicas.
“A China tornou-se o maior exportador mundial de bens e o principal parceiro comercial de dezenas de países, incluindo Angola. Paralelamente, consolidou a sua liderança em sectores tecnológicos estratégicos como inteligência artificial, 5G, veículos eléctricos e supercomputação. Empresas como Huawei, Alibaba e BYD rivalizam directamente com gigantes ocidentais, desafiando a supremacia tecnológica dos Estados Unidos”, assinala o documento.

No plano militar, segundo a pesquisa que vem agregada à edição de Fevereiro deste ano da revista E&M, a modernização das Forças Armadas chinesas e a crescente presença no Mar do Sul da China reforçam a sua projecção de poder regional e global: “A diplomacia chinesa também se tornou mais assertiva, promovendo uma nova ordem internacional multipolar, menos centrada no Ocidente e mais favorável aos interesses do chamado Sul Global”.
Este novo posicionamento da China tem implicações profundas para a economia mundial: por um lado, oferece uma alternativa ao modelo liderado pelos Estados Unidos, especialmente para países em desenvolvimento que procuram financiamento, infra-estrutura e acesso a mercados; por outro, intensifica a rivalidade geopolítica com os EUA, gerando tensões comerciais, tecnológicas e diplomáticas que afectam a estabilidade global, realça o documento.
Para Angola, observa o estudo ‘Cenários de Crescimento da Economia Angolana até 2030 e Impactos sobre o Emprego e a Pobreza’, a ascensão da China representa tanto uma oportunidade como um desafio, lembrando que a China é actualmente o maior parceiro comercial de Angola, principal destino das exportações de petróleo e um dos maiores financiadores de projectos de infra-estrutura no país.
Sublinha que a cooperação sino-angolana permitiu a reconstrução de estradas, hospitais, escolas e sistemas de energia após a guerra civil, contribuindo para a modernização de Angola. Contudo, admitem os investigadores do CEIC, essa relação também expôs o país a riscos significativos: a dependência do petróleo como garantia de financiamento chinês aumentou a vulnerabilidade da economia angolana à volatilidade dos preços internacionais; além disso, muitos projectos foram executados com mão-de-obra chinesa, limitando a criação de emprego local e a transferência de tecnologia.
“Em suma, a ascensão da China está a reconfigurar a ordem económica global, oferecendo novas oportunidades de cooperação, mas também exigindo maior capacidade de gestão estratégica por parte de países como Angola. A chave estará em transformar a parceria com a China numa relação mutuamente benéfica, que contribua para o desenvolvimento sustentável, a diversificação económica e a inclusão social”, conclui o estudo.

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