O Fundo Monetário Internacional – FMI antevê incertezas e riscos da economia moçambicana em resultado do agravamento da crise da dívida, aumento do custo de vida e restrições no financiamento externo, associadas, entre outros factores, ao prolongamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente.
O alerta foi dado nesta quarta-feira, em Maputo, pelo representante residente do FMI em Moçambique, Olamide Harrison, durante a apresentação do relatório Perspectivas Económicas Regionais (REO) para a África Subsaariana e da mesa-redonda subordinada ao tema: “Impacto do Choque nos Preços dos Combustíveis em Moçambique”.
Na ocasião, o representante residente do FMI em Moçambique destacou que a subida dos preços do petróleo e fertilizantes devido à escalada do conflito no Médio Oriente, estão a aumentar os riscos para a economia moçambicana, numa altura em que os ciclos de expansão baseados no aumento do investimento público e na valorização das matérias-primas revelaram-se temporários e incapazes de sustentar o crescimento económico no longo prazo.
O FMI advertiu ainda que o modelo moçambicano de crescimento baseado no aumento da despesa pública para impulsionar o sector privado já está ultrapassado. Por isso, a instituição defende que Moçambique deve avançar para uma maior flexibilidade cambial, projectando um crescimento económico de apenas 0,5% para o país.
“Os ciclos de expansão baseados no aumento do investimento público e na valorização das matérias-primas revelaram-se temporários e incapazes de sustentar o crescimento económico no longo prazo. Este modelo já não é viável devido aos elevados níveis de endividamento, aos custos de financiamento e à redução da ajuda externa. O crescimento sustentável depende do fortalecimento do sector privado através de reformas estruturais”, explicou Olamide Harrison.
Aumento da inflação
O FMI alerta ainda para uma possível aceleração da inflação e recomenda uma política monetária cautelosa, bem como maior flexibilidade cambial para responder a choques externos.
Segundo o FMI, um novo aumento dos preços internacionais do petróleo, fertilizantes e alimentos associado a uma eventual intensificação do conflito no Médio Oriente poderá pressionar a inflação, reduzir o crescimento económico e agravar as dificuldades sociais na região da África Subsaariana, incluindo Moçambique.
“Há necessidade de adoptar mecanismos de manutenção de políticas macroeconómicas prudentes, protecção dos grupos mais vulneráveis e o reforço da capacidade dos países por forma a mobilizar recursos internos e responder a futuros choques económicos”, defendeu.
Entretanto, o alerta sobre o aumento da inflação em Moçambique é também apontado pela Fundação para o Desenvolvimento da Competitividade (FUNDEC) no seu recente estudo divulgado esta quinta-feira. No seu relatório técnico sobre “Mercado de Combustíveis, Escassez de Divisas, Sistema Bancário e Impactos Macroeconómicos em Moçambique (2019 – Maio de 2026)”, a FUNDEC adverte que o país poderá, nos próximos meses, enfrentar uma pressão inflacionária, visto que a crise de combustíveis vieram exacerbar os problemas da falta de divisas no mercado nacional.
No estudo, a FUNDEC explica que a escassez de divisas em Moçambique não surgiu de forma repentina em 2025 ou 2026. “Trata-se de um problema estrutural cuja génese moderna remonta principalmente ao período posterior à crise das dívidas ocultas em 2016. A partir desse momento, a economia moçambicana entrou num processo gradual de deterioração da confiança internacional, redução de fluxos financeiros externos e fragilização cambial”, esclarece o relatório que foi apresentado pelo economista-chefe, Clésio Foia.
O relatório destaca ainda que a subida dos preços dos combustíveis em Moçambique “tem mostrado um impacto directo e imediato sobre a inflação e sobre as taxas de juros da economia”. “Como o combustível é um dos principais custos do transporte, logística e distribuição nacional, qualquer aumento da gasolina ou do gasóleo acaba rapidamente por se reflectir nos preços de bens e serviços em praticamente todos os sectores económicos”, concluiu.


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