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Estamos a ficar sem diamantes ou haverá outra história por detrás dos números?

Walter Hinda
8/7/2026
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Foto:
DR

Produzir diamantes não depende apenas da existência de recursos geológicos; depende igualmente da racionalidade económica da sua extracção.

Em Maio deste ano, Karen Rentmeesters, CEO da Antwerp World Diamond Centre (AWDC), partilhou no LinkedIn uma reflexão sobre a produção mundial de diamantes. O texto comentava um artigo de Avi Krawitz, do Diamond Press, que retomava uma previsão atribuída à Alrosa: em 2026, a produção mundial poderia cair abaixo de 100 milhões de quilates.

Na altura, tratava-se apenas de uma projecção. Entretanto, as estatísticas oficiais do Processo Kimberley, relativas a 2025, foram divulgadas e acabaram por antecipar este cenário. A produção mundial de diamantes fixou-se em 98,82 milhões de quilates, uma redução de 11,4% face a 2024 e, pela primeira vez desde o início da série estatística do Processo Kimberley, em 2004, ficou abaixo da marca de 100 milhões de quilates.

Mas há uma questão mais importante do que os próprios números. Estaremos perante um sinal de esgotamento das reservas diamantíferas ou perante uma indústria que, deliberadamente, decidiu produzir menos?

Uma leitura apressada pode conduzir à primeira conclusão. No entanto, os acontecimentos dos últimos anos sugerem uma realidade mais complexa. O encerramento de algumas minas, a maturação de outras, o adiamento de novos investimentos, as sanções aplicadas aos diamantes russos e a expansão dos diamantes sintéticos alteraram profundamente o funcionamento do mercado. Perante uma procura mais fraca, vários produtores optaram por ajustar a oferta.

Os dados de 2025 reflectem claramente essa realidade. A Rússia reduziu a produção em 16% relativamente ao ano anterior. No Botswana, a redução da produção da gigante Debswana traduziu-se numa queda de 15% da produção nacional. Em sentido inverso, Angola registou um crescimento de 8%, alcançando 15,2 milhões de quilates e consolidando a sua posição como o terceiro maior produtor mundial em volume. O reforço da produção, aliado ao desenvolvimento de novos projectos e à continuidade das actividades de prospecção, demonstra que continuam a existir condições para expandir a oferta quando as condições económicas o justificam.

É precisamente aqui que a reflexão de Rentmeesters ganha relevância. Produzir diamantes não depende apenas da existência de recursos geológicos; depende igualmente da racionalidade económica da sua extracção. Ter diamantes no subsolo é indispensável, mas não é suficiente. É igualmente necessário que existam condições para os colocar no mercado de forma sustentável.

A indústria diamantífera tem, aliás, uma particularidade que nem sempre é evidente. A disponibilidade física dos recursos não determina, por si só, o nível de produção. Entre a existência de um depósito e a sua exploração existe um factor decisivo: a viabilidade económica. Há jazigos conhecidos que permanecem por desenvolver, não por falta de diamantes, mas porque, nas actuais condições de mercado, o investimento necessário para a sua exploração ainda não encontra justificação económica.

É por isso que a queda da produção mundial deve ser interpretada com alguma prudência. Ela não significa, necessariamente, que o mundo esteja a ficar sem diamantes. Antes, reflecte, em parte, um período de ajustamento em que a indústria procura adequar a oferta à actual conjuntura económica global e à evolução da procura nos principais mercados de consumo.

Durante muitos anos, o debate centrou-se na capacidade de produzir cada vez mais. Hoje, a discussão parece deslocar-se para outra questão: quanto produzir, quando produzir e em que condições produzir.

Em 2019, Paul Zimnisky, no artigo Don’t Give Up on the Diamond Industry Just Yet, chamou a atenção para um cenário em que a produção mundial poderá aproximar-se dos 60 milhões de quilates nas próximas décadas, em consequência do encerramento de várias minas e da insuficiente reposição dessa capacidade produtiva por novos projectos. Se este cenário vier a concretizar-se, a questão continuará a ser menos o número em si do que as razões que o explicam. Será esta redução consequência do esgotamento de algumas minas ou reflectirá, cada vez mais, as decisões económicas de uma indústria que responde aos sinais do mercado? As duas explicações não são incompatíveis e, muito provavelmente, coexistirão. 

Mas, para 2025, mais do que assinalar um novo mínimo estatístico, os números revelam uma mudança na forma como a indústria responde ao mercado. E essa é, mais do que o próprio volume produzido, a verdadeira história que estes dados contam.