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Irão – Uma batalha pelo fim nuclear e pela democracia ou por interesses geo-estratégicos entre potências?

Nuno Fernandes
24/7/2026
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Foto:
DR

Nos 100 dias de conflito, os EUA conseguiram asfixiar o coração do sistema energético internacional, com marcada vantagem para tudo o que é produção de petróleo e gás americano.

Este conflito revelou-se e revela-se nos dias de hoje como uma guerra económica entre as duas maiores potências mundiais, os Estados Unidos da América e a China, com a participação colateral de players menores da região.

Nos 100 dias de conflito, os EUA conseguiram asfixiar  o coração do sistema energético internacional, com marcada vantagem para tudo o que é produção de petróleo e gás americano. Cada uma das três maiores bacias de petróleo norte-amercianas produz o equivalente à produção de um país do Golfo Pérsico. Os Estados Unidos produzem hoje 14,5 milhões de barris de petróleo  por dia, estando a capitalizar, de forma brutal,  com a crise  resultante da asfixia do estreito de Ormuz, por onde transita a maior parte do petróleo  dos países do Golfo. Ao impedir a saída do petróleo iraniano, não apenas se pretende atingir a economia iraniana e dos restantes produtores da região, mas sobretudo valorizar as exportações do petróleo e gás norte-americanos, situação com a qual convivem muito bem as empresas produtoras, empresas tecnológicas e as de fabrico de armamentos.

Os EUA visam manter o controlo do sistema energético mundial no presente século. Sendo um petroestado, e estando 81% da matriz energética mundial a depender do petróleo, gás e carvão – os dois primeiros representam 51% do consumo mundial –, os Estados Unidos rumaram para este conflito com o fito único de atingirem os interesses estratégicos da China. Ao contrário do que muita gente pensa, não foram à boleia das pretensões regionais israelitas. Israel aproveitou o conflito para dirimir as suas posições geo-estratégicas na região e problemas de carácter interno, mas  não o ditou.

A China, contudo, há muito que se vem preparando. É o maior electroestado do planeta. Promoveu e promove a electrificação crescente da sua economia, quer a nível da sua indústria, quer no seu sistema de transportes, de forma acelerada. Possui a maior rede de transportes de alta velocidade do mundo, estimada em mais de 50. 000 quilómetros, superior a tudo o que, somado, se passa no resto do mundo. Dos 21 milhões de carros eléctricos vendidos a nível mundial, 2/3 foram fabricados na China. Neste país, em cada dois carros comercializados, um é eléctrico. A frota de carros pesados está já em fase acelerada de electrificação.

Segundo o último relatório da Agência Internacional de Energia, a electricidade foi a fonte de energia que mais cresceu  no mundo, cabendo à China particular responsabilidade. Em 2024 a electricidade cresceu 4,3% enquanto o consumo de petróleo em 2025 foi de 0,7%, o de carvão 0,4% e o de gás 1%. A energia solar e eólica são as grandes protagonistas. Os custos marginais destas energias limpas são muito baixos, o que confere à economia chinesa fortes vantagens. A China é hoje o Estado que mais investe, mais do que a Europa e os EUA juntos, nas novas energias. No último ano, 80 % das baterias vendidas no Mundo foram fabricadas na China  tal como 90% dos painéis solares.

Fica aqui claro qual a razão pela qual os EUA atacaram o Irão  com o cuidado de não se envolverem em operações terrestres que o pudessem capturar para um conflito de longa duração. A grande razão da paciência de Trump na gestão das negociações com o Irão. Na demora esteve e está também o ganho. A preocupação é não sair desse processo com a imagem de não ter conseguido quebrar o Irão nas questões nuclear, dos mísseis balísticos e da natureza do regime. O grande perdedor será Israel, que não conseguiu a colagem definitiva dos EUA às suas pretensões regionais. Os americanos também se serviram de Israel na montagem desta operação.

Do nosso lado, fica a preocupação de também electrificarmos a nossa economia, abandonando progressivamente a sua dependência do petróleo. Um desiderato que combina numa relação intersectorial assente no conhecimento e na definição de estratégias claras de desenvolvimento. Temos todas as condições.