Aos 10 anos, sem um televisor em casa, Leonel Miguel encontrou nos pedais de uma máquina de costura a diversão. O pai comprou-a para aprendizagem de ofício pelos irmãos mais velhos, uma praxe à época. O que parecia simples passatempo viria a transformar-se, ainda na adolescência, numa coabitação profissional com pedais, cortes e costura.
Hoje, aos 54 anos, é um estilista reconhecido. A sua marca, ‘LM’, está a penetrar em importantes mercados. Veste destacadas figuras da sociedade angolana, entre músicos, jornalistas, desportistas, modelos. As suas peças são, também, exibidas por individualidades de renome internacional.
Diz-se estilista auto-didacta. Recorda que, em Portugal, país em que imigrou a abrir a década de 90, decidiu frequentar uma formação de Estilismo, em Alcântara. Encontrou o curso a meio. Surpreendeu nas aulas práticas. Foi catapultado para formador.
Na Europa, decidiu experimentar-se no cinema. Numa sessão de gravação, acabou por se transformar num ‘bombeiro’. A produção deu pela falta de indumentária de um actor. Leonel voluntariou-se. Trocou a encenação pelo pedal. Confeccionou a peça. O resultado “foi surpreendente”, recorda.
“A partir daí, a formação que devia ter dado continuidade ficou para trás. Começou o movimento de clientelas e de convívio com pessoas do mundo da moda, como o icónico ‘Zé da Guiné’, que se destacava na moda em Portugal. E, naturalmente, hoje, é o que fizemos cá em Angola: damos formação”, declara.
O regresso ao País ocorreu em 1998. Estava agastado com actos de racismo na Europa. Acedeu, com facilidade, ao convite de William Tonet para desenvolver, em Luanda, a marca de roupas Willeo. A parceria com o jornalista foi desenvolvida, mas não durou. Decidiu seguir o seu caminho.
Um grupo de empresários chineses abriu-lhe as portas para a concretização do sonho de uma indústria de casacos clássicos em Angola. Foi levado à China. Escolheu as maquinarias. No regresso, deixou-se influenciar por um parceiro e desviou o projecto para a província do Bengo. Era para ser em Malanje, terra das suas origens.
“O projecto foi desenvolvido, mas, infelizmente, três anos depois, ‘morreu’. Eu e a parte chinesa retirámo-nos. Hoje, teríamos uma das maiores indústrias [de costura] de Angola. O oportunismo existiu da parte desse parceiro”, desabafa.
Mantém, contudo, acesa a chama de voltar a desenvolver um projecto semelhante. Tem-no desenhado. Está orçado em 2 milhões USD. Já não tem os empresários chineses por perto e a banca ainda não lhe dedicou atenção.
Observa que há, sobretudo no Norte de Angola, capital humano com talento na área. Recorda que o angolano é, por natureza, vaidoso. Destaca os investimentos feitos na indústria têxtil, em particular na Textang. Lamenta, entretanto, que tenha de recorrer frequentemente ao estrangeiro para adquirir insumos, como tecidos.
Leonel Miguel sugere mais aposta no sector primário. A produção de algodão em grande escala é determinante para garantir matéria-prima em quantidade e qualidade para que a indústria transformadora eleve e diversifique o nível de produção, observa.
“Somos produtores de petróleo; as fibras sintéticas, o poliéster, são produzidos com resíduos de petróleo, mas nunca ouvi qualquer interesse nessa perspectiva. Domino este segmento e posso afirmar que temos potencial natural enorme para nos tornarmos auto-suficientes na produção de roupas”, assinala.
Enquanto espera por financiamento, o estilista está a desenvolver, com fundos próprios, duas linhas de produção, em Luanda. São operadas por 18 angolanos. A principal está no Benfica. A outra funciona nas instalações de uma unidade sanitária, e produz peças hospitalares.
Confidencia que está a receber “propostas quase irrecusáveis” para produzir a partir da Europa. Está decidido em priorizar Angola. Valoriza o convívio com culturas e conceitos. É um estilista que privilegia a criatividade, a originalidade e a exclusividade. Tais atributos, diz, estão subjacentes nas encomendas que recebe de todos os cantos do globo.
As vendas ao estrangeiro dominam as estatísticas. As peças seguem sobretudo para Portugal, Reino Unido, e, agora, Estados Unidos: “Will Smith recebeu uma oferta nossa. Viu a peça e, inclusive, colocou-a na sua página. Podia não ter colocado, se não tivesse interesse. Estavam ali simbolizadas a nossa Palanca Negra e as cores de Angola”.










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