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Moçambique prepara-se para subida de preço de combustível enquanto se assiste ruptura no mercado

Hermenegildo Langa
17/4/2026
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Foto:
DR

Moçambique regista, nos últimos dias, uma crise sem precedentes de combustíveis, sobretudo de gasóleo e gasolina devido ao conflito no Médio Oriente. A ruptura é quase nacional.

A agitação sobre a procura de combustível no país tem sido enorme e já vem se registando há mais de duas semanas. A maioria dos postos de abastecimento estão sem esse recurso desde que iniciou a guerra no Médio Oriente, ou seja, as rupturas são constantes. Que se diga, o sistema de abastecimento está ao limite, mas as autoridades desdramatizam a situação, afirmando não haver ainda ruptura de stock.

O cenário já começou a provocar impactos para a economia, sobretudo para a área de transporte que depende deste precioso líquido para a sua actividade. E a cada dia, a situação vai se agudizando e se alastrando para o resto do país, ameaçando de certa forma a economia.

Na capital moçambicana, Maputo, por exemplo, a situação piorou esta semana, havendo vários postos de abastecimento espalhados sem combustível há vários dias. E os que têm, o abastecimento segue a rigor: quantidades limites para cada cidadão por forma a chegar para todos, mas com filas de automóveis a fazer mais de um quilómetro na maioria das vezes.

O cenário acontece um pouco por todo o território nacional, onde há províncias que possuem apenas dois ou três postos de abastecimento com combustível, obrigando os automobilistas a pernoitar nas filas à espera do abastecimento. A província de Tete, no centro de Moçambique, é um dos casos em que chegou a ter apenas um posto de abastecimento de combustível nesta quarta-feira.

E a rotina diária tem sido a mesma em todo o território nacional, gasta-se o pouco em busca de mais combustível.

Paralisação à vista, mas o preço vai agravar-se

Enquanto persistirem os problemas no abastecimento de combustível, as ameaças de paralisação de algumas actividades é quase um cenário certo. A Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO), uma agremiação que congrega transportadores semi-colectivos urbanos e interprovinciais, garante não haver outra alternativa senão suspender as actividades alegadamente devido à insustentabilidade do negócio.

“Teremos que parquear os autocarros se a crise persistir. Estamos a somar prejuízos, então a única saída que temos é paralisar as actividades até que o abastecimento de combustível volte ao normal”, adverte o presidente da agremiação, Castigo Nhamane.

De acordo com a FEMATRO, o aviso deve-se ao facto dos operadores de transportes estarem a viver um verdadeiro teste de paciência e resiliência, devido à falta de combustível, sobretudo a gasolina.

Entre as longas filas e incertezas estavam os operadores de transporte semi-colectivo de passageiros, que contaram que muitas vezes gastam o pouco combustível que têm à procura de mais. Quando amanhece, em vez de transportar passageiros, põem-se em chamadas para saber que postos têm reservas.

Para o Juiz Conselheiro do Tribunal Supremo, Carlos Mondlane, Moçambique está a enfrentar uma das piores crises de combustível desde o período pós-colonial que poderá precipitar a estagnação dos sectores produtivos. “As filas enormes dos automobilistas em busca de combustível estão a provocar sem dúvidas uma estagnação dos sectores de actividades”, defendeu o Juiz Conselheiro.

Recorde-se que na segunda-feira, o Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, alertou que a crise de combustíveis provocada pela guerra no Médio Oriente pode chegar a Moçambique a qualquer momento. Falando na abertura da segunda sessão ordinária da Organização da Juventude Moçambicana (OJM, braço juvenil da Frelimo), Chapo pediu a aposta no transporte público para mitigar a crise, sublinhando que “a prioridade do Governo, ao disponibilizar viaturas para transporte público em todo o país”.

“Ao colocarmos as viaturas para os 15 municípios da zona centro e norte e no próximo mês de Maio para a zona sul, é exactamente para anteciparmos a crise de combustíveis que a qualquer altura pode chegar, por causa da guerra entre o Irão, Estados Unidos e Israel. Com transporte público podemos minimizar o impacto desta crise”, referiu Daniel Chapo que é também presidente da Frelimo, partido no poder.

Mas os preços vão subir. Segundo Chapo, caso o conflito no Médio Oriente prevaleça, poderá elevar o custo de combustíveis e de vida em Moçambique. “Como sabem boa parte dos combustíveis saem daquela zona e sem margem de dúvida que tarde ou cedo, ao nível do nosso país também os novos preços vão ter que chegar, é um desafio global”, adiantou.

Qual crise de combustíveis?

A realidade e os relatos dos munícipes revelam uma crise de combustíveis no país. Contudo, a Importadora Moçambicana de Petróleos (IMOPETRO) garante haver disponibilidade de combustíveis nos quatro terminais oceânicos do país, assegurando que “não há risco de escassez”, apesar do impacto do conflito no Médio Oriente.

De acordo com a directora de Operações da IMOPETRO, Abida Patel, o que acontece é que Moçambique deixou de importar combustíveis a partir do Médio Oriente, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, passando a recorrer a outros mercados, com destaque para a Índia.

“Grande parte do combustível vinha do Médio Oriente, mas, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, o fornecimento passou a ser feito a partir de outras praças, como a Índia. Os navios continuam a chegar e há disponibilidade de combustível nos terminais”, explicou a fonte, apelando à calma da população.

A responsável desencoraja igualmente a corrida aos postos de abastecimento, assegurando não haver razões para pânico. “Não há razões para pânico. Os cidadãos devem abastecer normalmente, sem necessidade de açambarcamento”, disse.

Entretanto, embora o Executivo não assuma a existência da crise de combustíveis, as medidas emergenciais não tardaram. Nesta quinta-feira, o Ministério dos Recursos Minerais e Energia aprovou medidas excepcionais para garantir o abastecimento de combustíveis líquidos no país.

“Com vista a assegurar a normalização imediata da situação, o Governo autoriza, de forma excepcional e urgente, aos retalhistas a adquirirem combustíveis junto de qualquer distribuidor devidamente licenciado, que tenha disponibilidade de produto, independentemente dos vínculos contratuais existentes”, lê-se numa nota divulgada pelo Ministério.

A medida, de acordo com o Executivo, “visa garantir que todos os postos de abastecimento tenham combustíveis para venda ao público, e deverá vigorar até que todos os operadores distribuidores recuperem as condições para a retoma do curso normal de distribuição”. No entanto, o Governo assume que os operadores retalhistas estão a enfrentar constrangimentos no processo de aquisição de combustíveis, junto dos operadores distribuidores, com os quais têm contrato, para a reposição deste recurso, nas bombas.