Na noite de 22 de Maio, o professor Henriques Filipe despediu-se do tio garantindo que viajava para Luanda para conhecer a neta recém-nascida. Mentiu. Oito horas depois, o docente, de 55 anos, morria soterrado com mais 27 pessoas, no desabamento da mina clandestina de ouro do Missaxi, em Nambuangongo, província do Bengo. A viagem para a capital do País nunca aconteceu. O abraço à recém-nascida foi engolido pela areia, numa tragédia que ceifou camponeses, estudantes, motoristas e atletas, carentes de empregos e oportunidades.
O último contacto entre tio e sobrinho deu-se às 20 horas, na casa de um familiar, na aldeia de Kifula. A povoação tem quatro mil habitantes. Henriques levava o telemóvel para carregar numa das poucas casas da zona com gerador. Moniz ia em busca do rádio que deixou a carregar, o único meio que dispõe para ouvir notícias. Aqui, a luz eléctrica é uma miragem; a televisão, um luxo.
Docente do ensino primário há 25 anos, Henriques Filipe leccionava na escola – única – primária da aldeia: uma estrutura precária, com duas salas de aula. Era pai de sete filhos e o sustento de duas esposas e da mãe idosa, debilitada por uma trombose. O salário não cobria os gastos com alimentação, vestuário e medicamentos. Rendeu-se à fama do trabalho de escavação, à procura de ouro. Estava no local e hora errada: a mina desabou. Henriques está entre as vítimas mortais.

Era uma vez o motorista, o mecânico e o craque da bola
António Gomes teve, também, a vida enterrada naquela cratera. De 33 anos, era um dos craques do Intergrupo de Kanacassala, a equipa de futebol que animava os finais de semana da comunidade. No óbito, a camisola ‘90’ que envergava nos campos de terra batida foi colocada sobre o cenário preparado para acolher a sua urna. António deixou oito órfãos. Quando não estava dentro das quatro linhas a driblar, dedicava-se à lavra, à mecânica. Antes da morte, trabalhava no conserto de uma carrinha do tio, uma jornada que o destino não o deixou concluir.
Lopes António chora a perda do terceiro filho, Gonçalves António, de 30 anos. A tragédia levou, igualmente, um sobrinho e um neto, ambos de 23 anos. Gonçalves não era um jovem sem rumo, conta, inconsolável, o pai. Exercia a actividade de táxi e dedicava-se a ajudar o senhor Lopes no campo. Naquela madrugada, deixou o carro estacionado à porta de casa, seguiu com os amigos até à mina. Foi o seu último percurso sobre a terra que lhe tirou a vida.
“Tem havido outros desabamentos, pessoas que partem braços ou pernas, mas, com mortes, é a primeira vez. Pedimos ao Governo que monte um Posto Policial na mina para travar as pessoas” suplica, forçado pela lição do infortúnio, Lopes António.
António e Gonçalves foram vítimas de um contexto social onde o desemprego atinge mais de 2,6 milhões de pessoas no País.

Um ouro que cintila na vida de garimpeiros
Enlutado pela perda de familiares, Paulo de Sousa conta que a população de Nambuangongo sempre viveu da agricultura de subsistência. Mas, nos últimos anos, o ouro alterou a dinâmica da região: os jovens começaram a abandonar os campos para alcançarem o sonho da compra de uma motorizada que a exploração de ouro promete.
Refere que o impacto do garimpo não é visível na condição social dos jovens. O mineral é comercializado a um preço baixo: “Os compradores são estrangeiros: da RDC, oeste-africanos, que vão abusando da inocência desses jovens”.
Ao invés de se combater o garimpo, opina que o ideal seria que o Governo criasse cooperativas para formalizar a actividade e garantir que ela seja exercida nos parâmetros de segurança e com ganhos concretos para os cidadãos.
Kifula, uma aldeia em luto
Na sua família, Henriques não morreu sozinho. Tiveram o mesmo trágico destino outros 12 familiares. São todos de Kifula, uma comunidade habitada maioritariamente por pessoas da mesma linhagem de sangue.
Na língua nacional Kimbundu, Kifula significa gosto ou sabor. No quotidiano da aldeia, assim que o sol emite os primeiros raios, a rotina local é marcada pelo movimento de motorizadas, o único meio de transporte a circular, e camponeses a caminho das lavras.
Após a tragédia, o vaivém de motas e camponeses com pás e picaretas e as brincadeiras das crianças na terra batida desapareceram, momentaneamente. Os choros de mulheres e homens ecoam, agora, em frente aos retratos dos defuntos. Um cenário com ‘Kifula’ amargo.
A tragédia expõe as veias abertas de um município completamente isolado. Na aldeia mais assolada pela tragédia, grande parte das casas são construídas com barro vermelho. Não há energia elétrica e água canalizada. O posto de saúde fica a sete quilómetros e só funciona à luz do dia. O único caminho que liga a aldeia ao resto da província é uma picada estreita, acidentada, quase intransitável durante as chuvas.

Nambuangongo, sem brilho
Em 1965, durante a Luta de Libertação Nacional, o poeta português Manuel Alegre imortalizou Nambuangongo como um território de guerra e medo, onde os homens partiam para as matas sem qualquer garantia de regresso. Sessenta e um anos depois, a história repete-se com uma ironia cruel: um grupo de homens partiu para a mata e nunca mais voltou.
Foi na esperança de dias melhores que entraram na mina. Era para ser mais uma jornada à procura de dinheiro, mas a jazida artesanal a céu aberto desabou antes do nascer completo do sol. Vinte e oito pessoas morreram soterradas. O sonho de dias melhores transformou-se num autêntico pesadelo para o município.
Alguns corpos foram retirados no momento. Outros, horas depois. Ainda assim, enquanto algumas famílias choravam os mortos, havia homens que continuavam a cavar a poucos metros, atrás do metal precioso. A ditadura da fome consumiu-lhes a sensibilidade, o medo. “Vou continuar. Cada um com a sua sorte”, afirma, sem titubear, um garimpeiro.
Localizada a mais de 100 quilómetros de Luanda, Nambuangongo, um dos municípios da província do Bengo, vive há anos uma corrida quase silenciosa por ouro. Sem emprego formal e com a agricultura de subsistência cada vez mais frágil, centenas de homens, mulheres, jovens e adolescentes encontraram no garimpo fonte de rendimento.
Percorrem trilhos de terra batida até às minas abertas entre as matas. Escavam túneis com instrumentos rudimentares e sem qualquer protecção. Trabalham horas debaixo do calor, cobertos de poeira e barro. São sustentados pela esperança de encontrar ouro entre areias de uma dura terra. Cada grama de ouro bruto chega a ser vendido a 100 mil Kz. Congoleses e chineses são clientes comuns.
Em Nambuangongo, o brilho do ouro contrasta com a paisagem de um município onde muitas casas são construídas de barro. Não há energia eléctrica em grande parte das aldeias, tampouco água canalizada.

Combate não trava ‘apetite’ por ouro
Despreparados e inexperientes, os garimpeiros escavam terrenos longe de protocolos convencionais da actividade. Em época chuvosa, a terra torna-se ainda mais instável. Desabamentos são frequentes, embora a maioria ocorra no mais absoluto anonimato, sobretudo por ausência de vítimas mortais.
Até ao fecho desta reportagem, não se conhecia uma nota oficial do Governo central sobre a tragédia. No Bengo, as autoridades anunciaram a abertura de um inquérito e apelaram à população para que “evite enveredar por esta prática, iludidos com o enriquecimento rápido e fácil e por promessas falsas de alegados empresários do ramo da exploração de minerais”.
No País, o garimpo de ouro é considerado crime contra minerais estratégicos. A pena vai até 8 anos de prisão. As multas podem ultrapassar os 3 mil milhões Kz. Contudo, o peso da lei não tem sido suficiente para travar o apetite pelo ouro. O fenómeno alastra-se particularmente nas províncias do Uíge, Huíla e Huambo.
A problemática não é nova. Já em 2017, Moisés David, então presidente da Agência Reguladora do Ouro, alertava que a actividade estava a atingir proporções alarmantes. Estimou que cerca de três toneladas de ouro saíam ilegalmente do País todos os anos, gerando prejuízo superior a 100 milhões USD. Na ocasião, defendeu o agravamento das punições ou o enquadramento dos garimpeiros na actividade formal.
Antes da recente tragédia, a Polícia Nacional, no Bengo, deteve mais de 600 cidadãos nacionais e estrangeiros por causa do garimpo na província. De acordo com a Polícia, as áreas anteriormente desactivadas voltaram a ser ocupadas, e novas zonas surgiram em locais de difícil acesso, dificultando a intervenção das forças de segurança.
Igreja Católica: garimpo é reflexo da pobreza
O Bispo de Caxito, Dom Maurício Camuto, considera que o quadro de garimpo que abunda na província é reflexo da fome, pobreza, desemprego e precariedade das famílias.
"[São] irmãos que procuravam maneiras de se alimentar, satisfazer as necessidades, alimentar as famílias, pois, agora, o que há é isso: a sede de ouro; todo o mundo procura o ouro", disse o prelado católico, que lamenta o facto de o Governo não conseguir travar o fenómeno.


%20-%20BAI%20Site%20Agosto%20%20(1).png)












