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Seca severa: Camponeses e pastores reportam perdas de 14,5 milhões USD. Apoio emergencial em marcha

Victória Maviluka
25/3/2026
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Foto:
DR

Desde Agosto último que não há quase chuva em muitas paragens do País. A estiagem está a comprometer seriamente o sustento de milhares de camponeses e criadores de gado.

Há uma seca severa com maior incidência sobre o litoral do País. Ao contrário do quase silêncio sobre o fenómeno no espaço mediático, nos vastos campos agrícolas e pastoris o cenário dominante é o grito dos produtores. As áreas agrícola e pecuária, juntas, reportam perdas resultantes da falta de chuva de cerca de 14,5 milhões de dólares, apurou a revista Economia & Mercado.

Os dados preliminares que conformam esta quantia expõem um quadro de seca de extrema gravidade, com registos desde Agosto do ano passado. No sector pecuário, a nível nacional, são cerca de 200 mil cabeças de gado em risco iminente, depois de 20 mil outras não terem resistido à falta de água e alimentos. É a seca a ameaçar o sustento de inúmeras famílias de camponeses e criadores de gado.

Considerando um valor médio conservador de 300 mil Kwanzas por cabeça, estimam-se os prejuízos directos em 6 mil milhões Kz (6,5 milhões USD). Mas o valor do risco imediato de perdas de gado é, de longe, superior: 60 mil milhões Kz (65,5 milhões USD), alerta a FENACOPA (Federação Nacional das Cooperativas Pecuárias de Angola).

Nos campos agrícolas, a outra face das vítimas do fenómeno, os danos são, também, significativos. O cálculo dos prejuízos por conta de culturas que não conheceram desenvolvimento face à falta de água é de 7,3 mil milhões Kz (8 milhões USD), de acordo com a AAPA (Associação Agropecuária de Angola).

Os primeiros sinais de alarme da acentuada devastação de campos soaram de associações que integram o Grupo Técnico Empresarial (GTE), uma plataforma criada em 2017 para servir de diálogo entre o sector privado e o Governo. Daí, o assunto ‘subiu’ para o Ministério da Agricultura e Florestas (MINAGRIF). Deu-se, então, início a uma ampla acção de apoio emergencial.

Os primeiros sinais de alarme da acentuada devastação de campos soaram de associações que integram o Grupo Técnico Empresarial (GTE), uma plataforma criada em 2017 para servir de diálogo entre o sector privado e o Governo

Produtores, empresários, técnicos e cidadãos identificaram-se com a causa solidária. Em várias paragens do País, foram feitos levantamentos sobre o real quadro provocado pela seca, com enfoque nas províncias de Benguela, Icolo e Bengo, Cuanza-Sul, Namibe, Bengo e Luanda. Tudo em marcha – “conhecimento, logística, contactos ou recursos – para reduzir significativamente os efeitos desta crise”, assinala um documento a que a E&M teve acesso. 

Foram apuradas perdas significativas nas colheitas agrícolas, sobretudo nas explorações familiares. O cenário alerta para possíveis dificuldades, nos próximos momentos, no acesso a alimentos nas comunidades rurais mais vulneráveis, caso não sejam adoptadas medidas preventivas e de mitigação com a necessária urgência. 

Do cunho do GTE, o documento acrescenta, à guisa de aviso, que o quadro é susceptível de provocar conflitos entre comunidades pela disputa de recursos naturais escassos e de gerar ocorrências de roubos de gado e outros incidentes. Como ‘saída’, a missiva, endereçada à tutela do sector, sugere, entre outras medidas, a reabilitação e abertura de pontos de água, incluindo furos, reservatórios e sistemas simplificados de abastecimento para o gado.

A causa, à qual o MINAGRIF prontamente se associou, engaja empresas como Carrinho, Induve, Moagem do Kikolo, Grandes Moagens de Angola, Rose Yoniben, Grupo Castel, Fonseca & Filhos. Grande parte das quais mobilizadas para fornecer farelo e ração. Mas também ⁠medicamentos de uso veterinário: soros de rehidratação, vitaminas, minerais, antibióticos, desparasitantes. 

Não obstante a onda de solidariedade que a iniciativa despertou, a ampla acção de apoio a agricultores e pastores afectados pela seca depara-se, ainda, com algumas dificuldades do foro logístico, particularmente a mobilização de transportes para o levantamento de produtos e posterior distribuição às vítimas da estiagem.

Seca já provocou a morte de 20 mil cabeças de gado em todo o País

Benguela, um dos ‘rostos’ da crise, responde à seca

Em Benguela, por exemplo, são cerca de 600 cabeças de gado que sucumbiram por conta da seca que tem na falta de água e de ração o retrato directo dos estragos. O quadro obrigou a criação, pelo governador Manuel Nunes Júnior, de uma Comissão Multissectorial para a Mitigação dos Efeitos da Seca nas Regiões de Criação e Produção do Gado.

O grupo foi orientado a identificar as regiões afectadas pela seca e proceder ao cadastramento dos criadores de gado; garantir o fornecimento de suplemento alimentar ao efectivo pecuário; promover a reabilitação de chimpacas, represas e furos de água e assegurar a construção de novas chimpacas e abertura de furos de água nas regiões afectadas.

A província do Bengo é outra das regiões fortemente abaladas pelo fenómeno da estiagem. Dados da Cooperativa Pecuária do Bengo (COOPBENGO), compilados em coordenação com as autoridades locais, apontam para quatro municípios (Panguila, Barra do Dande, Dande e Ambriz) onde a escassez de pasto compromete seriamente a sobrevivência de 21.515 animais.

No sector pecuário, a nível nacional, são cerca de 200 mil cabeças de gado em risco iminente

Chuvas dão sinal de regresso: ‘Mais vale tarde do que nunca’

Após uma primeira etapa da época chuvosa quase sem precipitações, algumas regiões do País têm já registado, desde início deste ano, frequência de chuvas. Do Cunene e da Huíla, surgem relatos de camponeses e  pastores que procuram agora recuperar dos estragos provocados pela estiagem desde Agosto de 2025.

No âmbito das acções de mitigação dos efeitos da seca, o ministro da Agricultura e Florestas trabalhou, no início desta semana, na província do Bié para, entre outras tarefas, acompanhar programas de reabilitação de três perímetros irrigados.

“Estamos a construir muitos canais de rega, mas não estão a aproveitar esses canais. Para nós, se vocês tiveram água, se tiveram a rega, já não precisam esperar pela chuva. Essas valas de rega são para vocês usarem e poderem trabalhar ao longo do ano e não ficarem só a trabalhar seis meses no ano”, apelou Isaac dos Anjos.

Recentemente, o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, lamentou a ausência de chuvas e o seu impacto nos objectivos da época agrícola em curso, e informou, tal como a E&M noticiou, que apenas 4% dos campos agrícolas espalhados pelo território nacional gozam de sistemas de irrigação.