Um barman ou um garçom pode saber tirar um fino, mas a questão está na forma como o faz. Qual é o desperdício, quanto tempo demora, como segura e observa o copo e de que maneira todo o processo é preparado? E, quando lhe perguntam se prefere uma “Preta” ou uma “Loira”, ou qual delas combina melhor com determinado momento ou prato, provavelmente não saberá responder!
É com base nesta experiência que nasce o Beer Experience `Sommelier de Cerveja´. Lançado pela empresa Refriango, a 7 de Agosto, em Luanda, a iniciativa pretende ampliar o conhecimento sobre a cerveja, promover a qualificação profissional e proporcionar ao consumidor uma experiência mais completa com este tipo de bebida.
De acordo com Gaspar Cabral, Gestor de Categoria das Bebidas Alcoólicas da Refriango, a formação abrange, numa primeira fase, 15 profissionais seleccionados de cinco estabelecimentos parceiros de restauração, com três participantes indicados por cada unidade.
Entre as razões que levaram a Refriango a apostar nesta formação estão a conservação adequada do produto, a escolha do copo apropriado, a técnica correcta de tiragem e a sua apresentação ao consumidor final.
Apesar do elevado consumo de cerveja em Angola, ainda existe uma reduzida cultura de serviço, afirma o gestor, acrescentando que o principal propósito é capacitar os profissionais da restauração e bares para que se tornem especialistas em cerveja.
“Quando entramos num bar, por exemplo, raramente somos questionados sobre o tipo de cerveja que preferimos, seja uma artesanal e mais encorpada para acompanhar com a carne, ou uma mais leve para pratos de marisco”, observou.
É um tema novo, considerou Gaspar Cabral, e foi precisamente por isso que a Refriango decidiu lançar esta iniciativa, que além de gerar valor para os profissionais, estabelecimentos e consumidores, pretende abrir caminho para futuras especializações no ramo.
O risco: os profissionais formados vão servir marcas da concorrência

Quando questionado sobre a possibilidade de estes profissionais utilizarem os conhecimentos adquiridos ao servirem cervejas de marcas concorrentes, o responsável sublinhou que o propósito global é promover a profissionalização dos empregados, independentemente de servirem marcas da concorrência.
“Queremos formar especialistas. Haverá uma maior ligação à Refriango, uma vez que somos nós que lhes proporcionamos a oportunidade de frequentar um curso profissional”.
Para o gestor, “este é um factor diferenciador” que, na sua visão, vai contribuir para que os profissionais tenham mais afinidade com os produtos da empresa.
Retorno do Investimento
Na primeira fase do Beer Experience `Sommelier de Cerveja´ a Refriango alocou cerca de 300 milhões de kwanzas. O retorno deste investimento será obtido com base na produtividade dos estabelecimentos participantes e na evolução da qualidade dos serviços prestados.
Conforme adiantou o gerente das ingeridas ébrias, “profissionais mais qualificados cometem menos erros, aumentam a produtividade e asseguram um serviço de maior qualidade”.
Este desempenho, realçou, contribui para o aumento das receitas dos estabelecimentos, gerando, ao mesmo tempo, um aumento do fornecimento de produtos por parte da Refriango.
“Mais do que o retorno comercial imediato, o foco reside na construção da categoria, no fortalecimento das marcas e na criação de valor a médio e longo prazo”, rebateu.
A empresa assegura ainda o acompanhamento destes 15 profissionais nos pontos de venda, através das suas equipas técnicas e comerciais, que irão aferir se os procedimentos transmitidos durante a formação estão a ser devidamente aplicados.
Num contexto económico exigente, justifica-se um investimento desta dimensão, sublinhou Gaspar Cabral, que também considerou fundamental investir nos profissionais, na inovação de produtos e no desenvolvimento do mercado, para que as empresas não caiam no esquecimento.
"Parar é morrer, Investir na qualificação do sector e na diferenciação é essencial para garantir a compectividade e a sustentabilidade do negócio a longo prazo, oferecendo experiências reais ao consumidor e não apenas produtos”, explicou.
Consumo responsável e combate ao excesso de álcool
De acordo com a organização, o objectivo desta iniciativa não é incentivar o consumo excessivo, mas elevar o conhecimento e promover uma relação mais informada entre o consumidor e o produto.
Esta acção procura, entre outras nuances, apresentar a cerveja de forma semelhante ao vinho, através da harmonização com as refeições e da compreensão das suas diferentes características, sejam elas mais leves, fortes, amargas ou doces, bem como das razões que justificam cada escolha.
Além disso, a Refriango dispõe de uma comunicação acompanhada por mensagens de responsabilidade social, incluindo o apelo ao consumo moderado e a proibição da venda à menores de 18 anos, além de acções de apoio à segurança rodoviária.
Uma nova era para a Escola de Cozinha e Pastelaria de Angola
O curso Sommelier de Cerveja é uma formação profissional que capacita o aluno a avaliar, servir, harmonizar e comunicar o conhecimento sobre diferentes estilos de cerveja. Para esta tarefa, a Refriango conta com a parceria da Escola de Cozinha e Pastelaria de Angola (ECPA) e com a certificação do Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP).
É a primeira vez que a ECPA ministra uma formação desta natureza. Apesar de estar vocacionada para o segmento que corresponde à sua denominação, a instituição vê nesta iniciativa uma oportunidade para alargar o seu nicho de atuação, respondendo a uma lacuna identificada no mercado da restauração.
A formação tem uma carga horária de três horas por dia e é ministrada às terças, quartas e quintas-feiras, com opções de horário nos períodos da manhã e da tarde. As segundas e sextas-feiras são evitadas, por serem dias de maior movimento no sector da restauração. No total, a formação terá 48 horas, distribuídas por cerca de 13 dias.
A mesma contempla módulos como a `História Das Bebidas e Tipos de Cerveja´, incluindo uma visita guiada à fábrica da Refriango, `Higiene e Segurança Alimentar´, onde os formandos aprenderão ferramentas para o manuseamento correcto de equipamentos, verificação de barris, controlo de temperaturas e escolha do copo adequado.

O Curso aborda ainda as `Técnicas de Serviço e Harmonização´ [com a gastronomia], a `Mixologia´, que envolve a criação de cocktails onde a cerveja é o ingrediente principal, a `Comunicação e Atendimento ao Cliente´, evidenciando as técnicas de expressão e postura comportamental, bem como a `Liderança e Gestão de Equipa´, pensada para chefes de sala e responsáveis de estabelecimentos.
Madalena Quiala, directora-geral da ECPA, reconhece que se trata de um desafio, mas assegura que a duração prevista de 13 dias será suficiente para dotar os quadros de competências técnicas e de atendimento, de modo a responderem às exigências de um mercado cada vez mais compectitivo.
O efeito duplo: o que ganham as instituições com esta formação
Entre as vantagens que esta medida vai trazer, figuram a redução do desperdício, a valorização e retenção de quadros, a melhoria no atendimento e fidelização dos clientes, assim como uma maior adesão aos produtos da instituição organizadora.
Para a ex-administradora executiva para a área da Formação da ENAP, um atendimento de qualidade aumenta a satisfação dos clientes, ao mesmo tempo que favorece a recomendação dos estabelecimentos, o aumento das vendas e dos lucros.
“No final, todos os intervenientes saem beneficiados”, frisou.
O mercado de trabalho de “Sommelier de Cerveja”
O Cenário laboral de sommeliers de cerveja em Angola ainda se encontra numa fase embrionária. Embora não existam, actualmente, profissionais certificados nesta área, há diversos barmen e empregados de mesa que possuem experiência prática no serviço de cerveja, na extracção de finos e até na preparação de cocktails à base de cerveja.
No entanto, segundo Madalena Quiala, a formação de um sommelier de cerveja vai além da simples capacidade de servir correctamente uma cerveja.
Além do domínio técnico, reforça a gestora, o sommelier de cerveja deve ser capaz de comunicar com o cliente e prestar aconselhamento. Deve conhecer, por exemplo, as diferenças entre uma Tigra preta e uma loira, identificar as características de cada uma e recomendar a melhor opção de acordo com a refeição ou com as preferências do consumidor.
“Desta forma, o profissional deixa de ser apenas responsável por servir um fino e passa a desempenhar um papel activo na experiência gastronómica do consumidor” observou.

O turismo e a necessidade urgente de qualificação do quadro nacional
O Executivo angolano tem feito um esforço substancial na diversificação da economia através do turismo. Contudo, países como a Bélgica e Alemanha promovem a sua cultura cervejeira como atracção turística.
Em Angola temos marcas de cerveja de grande relevância nacional e internacional, como a Cuca, Nocal, Eka, N'gola, Tigra e outras, porém, salienta Madalena Quiala, “faltam profissionais capacitados para comunicar esse património ao cliente externo”.
Neste sentido, torna-se urgente capacitar mais profissionais no sector, um passo essencial para que a restauração e o turismo em Angola atinjam os padrões de exigência internacional.
“Diante do desenvolvimento do turismo e da entrada de grupos hoteleiros internacionais em Angola, a capacitação local é urgente. Se não prepararmos os nossos quadros, os grandes grupos trarão mão-de-obra do exterior. Por isso, devemos cada vez mais nos comprometer em garantir que os profissionais angolanos estejam prontos para assumir essas oportunidades”, concluiu Madalena Quiala.
O Panorama global da profissão
A Alemanha e outros países europeus têm um papel central na formação e profissionalização da actividade. A Doemens Academy, na Alemanha, é uma das principais referências internacionais e organiza, desde 2009, a Copa do Mundo de Sommeliers de Cerveja, realizada de dois em dois anos.
Segundo a Doemens, em 2025 existiam mais de 7.000 sommeliers de cerveja formados a nível mundial. Na edição de 2025 do campeonato mundial participaram 93 sommeliers provenientes de 18 países e quatro continentes.
África: um mercado ainda emergente
Em África, o mercado de sommelier de cerveja encontra-se numa fase mais embrionária quando comparado com os Estados Unidos e alguns mercados europeus. A profissão ainda não possui a mesma estrutura de certificação, reconhecimento e presença profissional observada no universo do vinho.
A África do Sul destaca-se como um dos mercados mais estruturados do continente no sector. A South African Sommeliers Association (SASA), criada em 2010, desenvolveu um sistema de certificação reconhecido internacionalmente e mantém ligação à Association de la Sommellerie Internationale (ASI). Embora o seu foco principal seja o vinho, a existência desta estrutura demonstra que há no continente capacidade para desenvolver profissões especializadas no serviço e conhecimento de bebidas.
A África do Sul dispõe igualmente de instituições de formação especializadas em sommellerie. A Sommeliers Academy, por exemplo, afirma formar mais de 400 estudantes por ano e oferece cursos desde níveis introdutórios até à certificação de sommelier.
Para além da África do Sul, mercados como Quénia, Nigéria, Marrocos e outros centros urbanos africanos têm registado uma crescente profissionalização da cultura de bebidas, sobretudo nos segmentos de cocktails, cerveja artesanal e hospitalidade.
Contudo, o continente apresenta condições favoráveis para o desenvolvimento da actividade. A expansão da restauração, hotelaria, turismo, gastronomia, cervejas artesanais e dos eventos ligados às bebidas, criam novas oportunidades para a especialização dos profissionais do sector.














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