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A encruzilhada das ajudas financeiras

Sebastião Vemba
3/3/2026
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Foto:
DR

Sob o olhar complacente - quando não conivente - de muitos dos seus líderes, o continente avançou para a encruzilhada das ajudas financeiras como quem caminha, resignado, para a guilhotina.

Recentemente, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) voltou a lembrar um dado incómodo: a ajuda financeira externa a África - sob a forma de doações ou financiamento concessionário - raramente ultrapassou, em média, 3% a 4% do PIB do continente. Um volume manifestamente insuficiente para sustentar, em escala, investimentos em infra-estruturas, industrialização ou capital humano. Ainda assim, durante décadas, África acomodou-se a receber o peixe, em vez de aprender a pescar.

Sob o olhar complacente - quando não conivente - de muitos dos seus líderes, o continente avançou para a encruzilhada das ajudas financeiras como quem caminha, resignado, para a guilhotina. Mo Ibrahim advertira, há alguns anos, que a ajuda nunca financiaria o futuro de África. O contexto actual dá-lhe razão: retracção das ajudas multilaterais, maior selectividade dos doadores e endurecimento das condições financeiras globais impõem ao continente a urgência de redefinir, com pragmatismo, os seus caminhos de desenvolvimento. Já vai tarde e o atraso cobra um preço elevado, visível no risco crescente de fome em várias regiões, agravado pelo corte do financiamento externo.

Segundo o Programa Alimentar Mundial, cerca de 55 milhões de pessoas na África Ocidental e Central deverão enfrentar níveis críticos ou piores de insegurança alimentar durante a estação de escassez entre Junho e Agosto de 2026. A directora regional adjunta do PAM para África, Sarah Longford, foi clara ao apontar a redução do financiamento como uma das causas do agravamento da fome em 2025, sublinhando que apoiar comunidades em crise é essencial para evitar que a fome se traduza em “mais agitação, deslocamentos e conflitos”. Nigéria, Chade, Camarões e Níger concentram, juntos, 77% deste drama.

Estudos internacionais, como o Compêndio de Documentos das Nações Unidas sobre Margem de Manobra Orçamental, Fragilidade e Conflito em África, convergem numa leitura desconfortável: a dependência prolongada da ajuda externa enfraqueceu a mobilização de receitas internas; corroeu a responsabilização fiscal entre Estado e cidadãos; e aumentou a vulnerabilidade a choques externos e aos ciclos políticos dos doadores.

Leia este artigo na íntegra na edição 257 da revista Economia & Mercado, disponível nas bancas.