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Hipertensão Arterial: o inimigo silencioso que pode ser prevenido e controlado

Drº. Mauer Gonçalves, Especialista em Cardiologia, Aliva
27/5/2026
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DR

"A hipertensão é, na maioria das vezes, uma doença crónica que exige acompanhamento contínuo e tratamento regular."

Maio é o mês dedicado à consciencialização sobre a hipertensão arterial, uma doença silenciosa que afecta milhões de pessoas em todo o mundo e que representa hoje um dos maiores desafios de saúde pública em Angola1,2. Apesar de muitas vezes não provocar sintomas, a hipertensão pode causar consequências graves quando não é diagnosticada e tratada atempadamente.

Nos últimos anos, Angola tem vivido profundas mudanças sociais e económicas. O crescimento urbano, as alterações nos hábitos alimentares, o aumento do sedentarismo, o stress diário e o consumo excessivo de sal, álcool e tabaco contribuíram para o aumento das chamadas doenças crónicas não transmissíveis, entre elas a hipertensão arterial e a diabetes. Hoje, estima-se que cerca de um terço da população adulta angolana tenha hipertensão, mas muitos desconhecem a sua condição3,4.

A hipertensão arterial é frequentemente chamada de “assassino silencioso” porque, na maioria dos casos, não apresenta sinais de alerta. Muitas pessoas sentem-se aparentemente saudáveis enquanto a pressão arterial elevada vai, lentamente, danificando órgãos importantes como o coração, o cérebro, os rins e os vasos sanguíneos. Em muitos casos, o primeiro sinal da doença surge apenas após um acidente vascular cerebral (AVC), um enfarte, insuficiência renal ou insuficiência cardíaca.

Por esta razão, o rastreio é fundamental. Medir regularmente a pressão arterial pode salvar vidas. Trata-se de um exame simples, rápido, indolor e acessível, que pode ser realizado em hospitais, centros de saúde, farmácias, empresas ou campanhas comunitárias. Todas as pessoas adultas devem conhecer os seus níveis de pressão arterial, mesmo quando se sentem bem.

O diagnóstico precoce permite iniciar medidas preventivas antes do aparecimento das complicações. Pequenas mudanças no estilo de vida podem fazer uma enorme diferença: reduzir o consumo de sal, praticar actividade física, evitar o tabaco, moderar o consumo de álcool, manter um peso saudável e controlar o stress são atitudes essenciais para prevenir e controlar a hipertensão.

No entanto, para aqueles que já foram diagnosticados como hipertensos, existe um aspecto igualmente importante: a adesão terapêutica. Muitos pacientes abandonam a medicação assim que se sentem melhor ou quando os valores da pressão arterial melhoram. Outros deixam de tomar os medicamentos por esquecimento, dificuldades financeiras ou por acreditarem que o tratamento já não é necessário. Este é um erro perigoso.

A hipertensão é, na maioria das vezes, uma doença crónica que exige acompanhamento contínuo e tratamento regular. O sucesso do controlo da doença depende não apenas da prescrição médica, mas também do compromisso diário do paciente com a sua saúde. Tomar correctamente os medicamentos, cumprir as consultas de seguimento e adoptar hábitos de vida saudáveis são medidas indispensáveis para evitar complicações.

É importante compreender que controlar a pressão arterial não significa apenas “ter números bons” num aparelho de medição. Significa proteger o coração, preservar os rins, evitar AVCs e garantir melhor qualidade de vida. Um paciente hipertenso bem controlado pode viver durante muitos anos de forma activa, produtiva e saudável.

A família também desempenha um papel fundamental neste processo. O apoio familiar ajuda na motivação para manter a medicação, melhorar a alimentação e adoptar hábitos mais saudáveis. Quando a hipertensão é enfrentada de forma colectiva, os resultados tendem a ser mais positivos.

Além do impacto individual, a hipertensão representa também um importante desafio económico e social. As complicações da doença aumentam os custos com internamentos, medicamentos, hemodiálise, cirurgias e reabilitação. Ao mesmo tempo, provocam absentismo laboral, redução da produtividade e incapacidades permanentes, afectando directamente as famílias e a economia do país.

A não adesão ao tratamento é uma das principais causas do aumento dos eventos cardiovasculares, como AVC, enfarte agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e doença renal crónica. Muitas destas complicações poderiam ser evitadas com diagnóstico precoce e tratamento adequado. Quando um cidadão perde a sua capacidade produtiva devido às consequências da hipertensão, toda a família sofre: aumentam as dificuldades financeiras, cresce a dependência de cuidados e reduz-se a qualidade de vida. O impacto ultrapassa o indivíduo e reflecte-se na sociedade e na economia nacional.

Por isso, falar sobre hipertensão é falar sobre prevenção, responsabilidade e futuro. Cuidar da pressão arterial é cuidar da vida. O momento de agir é agora: medir, prevenir, tratar e acompanhar. Porque uma simples medição pode fazer toda a diferença entre uma vida saudável e uma complicação evitável.



Referências:

1. NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC). Worldwide trends in hyperten sion prevalence and progress in treatment and control from 1990 to 2019: a pooled analysis of 1201 population-representative studies with 104 mil lion participants. Lancet. 2021;398(10304):957-980. doi: 10.1016/S0140 6736(21)01330-1.

2. Pereira SV, Neto M, Feijão A, Lutucuta E, Mbala C, Muela H, ET AL. May Measurement Month 2019: an analysis of blood pressure screening results from Angola, Eur Heart J Suppl. 2021;23(Suppl B): B9-B11. doi: 10.1093/eurheartj/suab038.

3. Capingana DP, Magalhães P, Silva AB, Gonçalves MA, Baldo MP, Rodrigues SL, et al. Prevalence of cardiovascular risk factors and socioeconomic level among pub lic-sector workers in Angola. BMC Public Health. 2013;13:732. doi: 10.1186/1471-2458-13-732.

4. Pedro JM, Brito M, Barros H. Prevalence, awareness, treatment and control of hypertension, diabetes and hypercholesterolaemia among adults in Dande municipal ity, Angola. Cardiovasc J Afr. 2018;29(2):73-81. doi: 10.5830/CVJA-2017-047.