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IA: o impacto na estratégia, no marketing e na cultura das empresas

Pedro Celeste
25/5/2026
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DR

Durante muitos anos, a Inteligência Artificial (IA) foi apresentada como um conceito futurista, reservado a laboratórios tecnológicos, filmes de ficção científica ou grandes multinacionais.

Hoje, já todos percebemos que a IA deixou de ser uma tendência distante para passar a fazer parte do quotidiano da maioria das empresas e dos seus profissionais. Encontramo-la nos motores de pesquisa, nas ferramentas de produtividade, nos serviços de apoio ao cliente, no marketing, nas vendas, na programação e até na forma como se escreve, analisa e decide dentro das organizações.

A grande diferença é que a IA deixou de ser apenas uma ferramenta operacional para passar a influenciar áreas profundamente estratégicas. Hoje, um departamento de marketing consegue criar campanhas, apresentações, textos, segmentações ou análises em poucas horas, quando anteriormente precisava de vários dias. As equipas comerciais utilizam sistemas inteligentes para resumir reuniões, analisar o comportamento dos clientes, prever intenções de compra e preparar propostas altamente personalizadas. Em muitas empresas, a IA começa já a influenciar pricing, previsão de vendas, gestão de leads e decisões estratégicas de comunicação.

O impacto imediato parece claramente positivo. Gera maior produtividade, reduz tarefas repetitivas, incute rapidez operacional e uma capacidade muito superior de tratar dados. Contudo, a questão torna-se mais complexa quando se olha para o médio e longo prazo, sobretudo nas áreas estratégicas, comerciais e de marketing.

O risco está em transformar a velocidade num substituto do pensamento.

São vários os casos de empresas que, em vez de recrutar profissionais juniores para desempenhar tarefas operacionais, optam por equipas mais pequenas apoiadas por IA. À primeira vista, o benefício financeiro parece evidente: menos custos, mais eficiência e maior rapidez. Mas numa perspetiva mais ampla surge um problema estrutural: muitas dessas funções representam o espaço onde os profissionais aprendem, erram, evoluem e desenvolvem capacidade analítica e pensamento estratégico.

No marketing, por exemplo, grande parte da aprendizagem constrói-se na interpretação de comportamento humano, na sensibilidade de comunicação, na criatividade e na leitura de mercado. Na área comercial, a verdadeira competência nasce da experiência relacional, da negociação, da empatia e da capacidade em compreender contextos complexos. Se a IA passa a executar grande parte das tarefas intermédias, corre-se o risco de criar profissionais mais rápidos, mas menos profundos e conhecedores da realidade.

Na área comercial, a verdadeira competência nasce da experiência relacional, da negociação, da empatia e da capacidade em compreender contextos complexos

A questão é particularmente crítica porque marketing e vendas nunca dependeram apenas de técnica. Dependem de compreensão humana, seja em mercados de consumidores ou empresariais. Uma ferramenta de IA pode sugerir uma campanha, escrever um texto ou recomendar um argumento comercial, mas continua a não substituir totalmente a capacidade de interpretar emoções, perceber nuances culturais, construir confiança ou identificar oportunidades estratégicas fora dos padrões previsíveis.

Paradoxalmente, quanto mais tecnologia existir, mais importantes se tornam algumas competências profundamente humanas. Pensamento crítico, criatividade, comunicação, liderança, capacidade de adaptação e inteligência emocional passam a ser fatores competitivos centrais, sobretudo em áreas ligadas à estratégia, marketing e vendas.

Como aconteceu noutras revoluções económicas, haverá vencedores e perdedores. Mas desta vez a velocidade da mudança é muito superior. 

A transformação não acontece apenas porque se implementam novas ferramentas tecnológicas. A verdadeira mudança acontece quando se repensa a forma de trabalhar, de liderar e de criar valor para o cliente.