A recente onda de saques ocorrida em luanda e noutras cidades do interior fez-me lembrar o tema de um artigo de 2014, que não resisto a trazer de volta.
Toda a gente tem mais ou menos a ideia do que são pára-raios. São hastes metálicas que se colocam no topo dos prédios para os proteger das descargas atmosféricas. Dito de outro modo, o pára-raios é um descarregador de tensões eléctricas perigosas, fazendo com que essas tensões sejam aliviadas de forma controlada. Utilizo esta analogia para mostrar que as sociedades e as organizações também precisam dos seus pára-raios.
Na perspectiva de alguns sociólogos que têm estudado o problema, os saques periódicos de lojas que têm ocorrido de forma recorrente em alguns países são resultado de sociedades que não facilitam a descarga das tensões sociais através da prática política e do sindicalismo ou que simplesmente reprimem ou dificultam as manifestações pacíficas.
A onda de vandalismo que varreu a cidade de Maputo em 2010 resultou do facto de a tensão social criada pelo aumento de preços não ter sido atempadamente descarregada por meios pacíficos. A ignição que provocou a recente onda de vandalismo que ocorreu na cidade de Luanda e noutras cidades do interior não está ainda convenientemente estudada, mas sabe-se que a mesma decorreu no seguimento da paralisação por parte dos taxistas em protesto pela subida do preço do gasóleo. Uma explicação pública da racionalidade da referida subida de preço e uma concertação social assertiva podiam ter ajudado a aliviar a tensão que se acumulou.
Francesco Alberoni, no seu “Viagem pela Alma Humana”, conclui que o mecanismo de eleição periódica torna mais raros e menos violentos os movimentos colectivos e que esse é um dos segredos da estabilidade política em muitos países. Parlamentos, tribunais independentes e comunicação social livre absorvem choques sociais e permitem descarregar frustrações e resolver tensões sem violência. A arte, o humor e o protesto simbólico também ajudam a canalizar angústias colectivas. As redes sociais também se converteram num meio de descarregar as tensões sociais, embora tenham o seu lado de atiçamento negativo.
Também não devemos olhar de lado para o sindicalismo. Numa entrevista curiosa, há cerca de dez anos, o líder da Autoeuropa considerou que os sistemas precisam de escapes. Quando não existem, cria-se demasiada pressão. Daí ele valorizar muito a comissão de trabalhadores, porque permite que o sistema não crie pressão e que os problemas sejam resolvidos. Por outro lado, permite direccionar os esforços da gestão no sentido que as pessoas mais apreciam.
Em conclusão, tal como os edifícios precisam de pára-raios para os proteger da acumulação de cargas eléctricas nas nuvens, as sociedades também precisam de mecanismos que permitam aliviar as tensões que se formam, para poderem viver pacificamente.












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