Testemunhou a Angola colonial, o País independente, a guerra civil, e, mais tarde, a paz. Dom Zacarias Kamuenho é conhecido pela verticalidade no discurso, sendo esta a razão de ostentar um Prémio Sakharov, em 2001, distinguido pela União Europeia face às suas jornadas de defesa dos direitos humanos em Angola.
A caminhar para os 90 anos de idade, o Arcebispo Emérito do Lubango tem, por conseguinte, muitas histórias para contar. Mas, na entrevista que concedeu à revista Economia & Mercado, foi desafiado, sobretudo, a radiografar a Angola dos últimos 25 anos.
No ‘tiro de largada’ da conversa conduzida por Sebastião Vemba, director da revista que, em Dezembro próximo, completa 25 anos, o prelado católico, como que valorizando o período de tranquilidade, fez uma abordagem telegráfica do período de guerra.
“É uma caminhada de heróis, heróis no sentido de que, quando conseguimos a paz, todos dissemos que lutámos pela paz. A nova caminhada começou, e chegámos ao fim do mandato de José Eduardo dos Santos. Depois, em 2017, o senhor Presidente João Lourenço [assumiu o poder], até este momento”, lembra.
Precisa que, com João Lourenço à cabeça do País, “houve transformações que todos constatámos, houve, também, recuos, e que, também, constatámos”.
Sacerdote há quase 50 anos, Dom Zacarias Kamuenho não teve muitas dificuldades para espelhar as transformações que constatou no reinado do actual Presidente. A sua igreja, afirma, tem testemunho de alguns destes registos.
“É só ver que o Presidente João Lourenço restituiu o poder de a rádio Ecclesia [associada à Igreja Católica] se expandir por todo o País”, recorda, com convicção.
Mas, na hora de revelar o seu sonho, traça um cenário que quase contrasta com o País que diz ter progredido no que à liberdade de expressão diz respeito: anseia por uma Angola “verdadeiramente, democrática”.
Destaca, como ponto positivo, a transformação da cidade do Lubango, capital da província da Huíla, descrevendo-a, descontraidamente, como uma espécie de Dubai. Mas aproveita a ocasião para deixar recado.
“A gente vê a cidade limpa, com passeios construídos, e dizemos: ‘Este lugar onde estava?’. Alguém trabalhou... Tudo, afinal, depende de como concebemos as coisas”, atira.

O Arcebispo Emérito do Lubango lamenta que o País tenha perdido a oportunidade de inserir, na última revisão constitucional, alterações que conformassem a lei magna aos “tempos que se vivem, aos tempos da democracia, de um país de direitos”.
Critica, por isso, que a versão do actual diploma “marginalize cérebros que podiam fazer melhor”, mas que são, alegadamente, afastados das principais estruturas da governação por não pertencer a uma partido político, por não se “acreditar neles”, aludindo ao tema do seu livro ‘Acreditei por isso falei’, lançado o ano passado.
“A revisão podia corrigir estas assimetrias na nossa convivência, na nossa angolanidade, despartidarizar…”, elenca o prelado católico, que, entre outras revelações, conta, detalhadamente, como um dia foi censurado na mídia nacional, quando proferiu um discurso num “programa inocente”, durante uma… oração.
Acompanhe aqui, na íntegra, a entrevista no espaço Conversas E&M - 25 anos.

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