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Manifestantes resistem' aos 'açoites' da PIR nos Congolenses

Fernando Baxi
19/6/2023
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Foto:
DR

O mercado do "Congolenses" foi palco de confronto entre as forças especiais da Polícia Nacional e jovens indignados com o agravamento do custo de vida em Angola.

“O meu marido avisou-me ontem (16.06.2023) que não regressaria a casa, porque no dia seguinte participaria de uma operação especial”, desabafou Catarina Domingos, uma das muitas vendedoras do mercado dos "Congolenses", aflitas com gás lacrimogéneo lançado por agentes da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) contra os manifestantes que pretendiam chegar ao "Largo da Independência".

Catarina Domingos, por sinal, é esposa de um agente da Polícia Nacional, que contribui para o sustento da família, vendendo naquele mercado. Apesar de atenta às movimentações dos efectivos da PN e dos manifestantes (jovens), foi incapaz de escapar ao tumulto causado pela intervenção das forças policiais, cuja missão era 'limpar a área'.   

Atordoada, face ao efeito do gás lacrimogéneo, clamava por ajuda. “Mana Cândida dá-me água por favor, os olhos e a garganta ardem-me”. Em tom jocoso, a vendedora a quem é solicitada apoio responde: “aguenta, se calhar foi o teu marido que lançou o gás”.

Comovidas com a aflição, quatro senhoras (também vendedoras) ampararam-na, evitando a queda dela: “Segurem-me, não tenho forças nas pernas”. Mas, o apoio prestado à Catarina foi repentinamente interrompido. Mais um explosivo com gás lacrimogêneo caiu próximo das 'socorristas'.  

Assustados com o soar das armas das forças especiais da PM, apoiadas com carros de assalto, motorizadas, cães, drones e outros meios bélicos, os vendedores abandonavam o mercado em debandada.

'Resistência' nas Pedrinhas e no Fundão  

'Armados' com pedras, os manifestantes indignados, por lhes ser coartado um direito consagrado no nº 1, do artigo 47º da Constituição da República de Angola, resistiam às investidas das forças especiais.

O largo das "Pedrinha" foi um dos pontos mais 'críticos' dos confrontos entre agentes da PIR e jovens que, na tarde do dia 17 de Junho de 2023, pretendiam se reunir no "Largo da Independência", em gesto de protesto contra o agravamento do custo de vida no País. A subida do preço da gasolina consta das reivindicações.  

“Resistência, resistência… resistência” era a palavra de ordem dos manifestantes que não faziam menção a qualquer ideal político-partidário. 'Destemidos', resistiram às investidas das forças especiais da PN por mais de 40 minutos. Repelidos, refugiaram-se na Rua do Fundão.

'Conquistado' o largo das "Pedrinha", o foco dos confrontos voltou-se à Rua do Fundão, bairro Nelito Soares. Nesta zona do distrito urbano do Rangel, os moradores também foram vítimas dos efeitos do gás lacrimogéneo. Ainda assim, não se intimidaram em socorrer os manifestantes, distribuindo água.

“Força juventude. Os mais velhos combateram para independência do País, os jovens têm todo o direito de reivindicar por melhores condições de vida”, desabafou um dos moradores das (Bês), contrariando um vizinho que reprovava a atitude dos manifestantes.

O lado oposto da missão

Apesar da resistência, a fuga era a única forma de escapar às investidas dos PIR. Enquanto os jovens fugiam desesperadamente, face às consequências do gás lacrimogêneo, um senhor de boa aparência lacrimejava. Para dissimular, tentava limpar as lágrimas, mas estas teimosamente escorriam.

Atento ao grupo de manifestantes em fuga, reconheceu um dos jovens, tendo-o perguntado o paradeiro de um deles. “Onde está o Vitó?”, dado ao tumulto no momento da fuga, este também desconhecia onde Vitó se tinha escondido. Situação que deixou o senhor ainda mais desolado.

Minutos depois, ficou-se a saber que se tratava de um agente dos Serviços de Investigação Criminal (SIC), destacado no local para impedir a marcha ao “Largo da Independência”, que procurava pelo paradeiro do irmão que participava da manifestação. Por questões de segurança, manteve oculta a identidade.

As forças especiais da PM, após duas horas de confrontos, conseguiram travar o ímpeto dos manifestantes, na maioria jovens dos 18 aos 25 anos de idade. Durante os protestos, nenhum dístico político-partidário foi içado. Não houve vítimas mortais, nem sequer feridos graves.                  

Nos primeiros momentos dos confrontos (que iniciou às 3:00), os manifestantes queimaram pneus, em plena avenida Deolinda Rodrigues, mas foram prontamente repelidos pelas forças especiais da PN, que se limitaram a lançar gás lacrimogénio nos momentos mais críticos.