IFC Markets Live Quotes
Powered by
3
1
PATROCINADO

Marco Histórico do Cazenga: Sem honra, símbolo do 4 de Fevereiro continua cercado por degradação

Teresa Fukiady
4/2/2026
1
2
Foto:
Isidoro Suka

Monumento, erguido para imortalizar o Início da Luta Armada de Libertação Nacional, definha entre o lixo, a destruição e o esquecimento.

“Lastimável”, “crítico”, “vergonhoso”. É com estes adjectivos de desolação que os moradores do Cazenga, em Luanda, descrevem o actual estado do Marco Histórico do 4 de Fevereiro. O monumento, erguido para imortalizar o Início da Luta Armada de Libertação Nacional, definha, hoje, entre o lixo, a destruição e o esquecimento. 

Onde outrora placas de bronze honravam os nomes daqueles que, de catana nas mãos, desafiaram o colonialismo na Cadeia de São Paulo, hoje restam apenas as marcas de "gangues" e grafites de vandalismo. Pedestal com mosaicos destruídos, repuxos degradados e inoperantes, muros e vedações danificados e jardins secos ou sem relva compõem o cenário, constatou a Economia & Mercado no local, nesta terça-feira, 3.

Concebido como espaço de memória colectiva, o perímetro do monumento, que deixou de receber obras de manutenção há vários anos, é agora usado para actividades informais, como oficinas improvisadas para a reparação e lavagem de viaturas e motorizadas, além de servir como depósito de resíduos sólidos e águas residuais. 

À noite, segundo moradores, a insegurança agrava-se. O local é apontado como ponto de consumo de drogas e prostituição. A poucos metros, funciona uma esquadra policial, cuja proximidade, dizem os residentes, não tem sido suficiente para travar a criminalidade.

Na manhã de terça-feira, 3 de Fevereiro, o som das vassouras, pás e carros-de-mão da ELISAL rompeu o silêncio do descanso dos moradores e de quem usa o espaço para passagem ou simplesmente se sentar. Para os moradores, porém, o gesto não é de zelo, mas de cinismo. 

“É tudo truque”, desabafa José Irineu, habitante local, que acrescentou: “Essa limpeza é o tapete vermelho estendido para as comitivas oficiais que, por algumas horas, fingirão que o monumento não está a morrer”, referindo à comemoração do 4 de Fevereiro, data que o monumento homenageia.

António Miguel, morador do Cazenga há mais de sete décadas

“Os nossos heróis não merecem isto”

Por sua vez, António Miguel, morador do Cazenga há mais de sete décadas, testemunha do erguer do monumento, carrega a cronologia do descaso nos olhos. 

"Vínhamos contar histórias sobre o 4 de Fevereiro aos mais novos. É triste [o que se vê hoje do monumento]. Os nossos heróis não merecem isto", lamenta, recordando o tempo em que o espaço era verde e vibrante. 

Reforça que a limpeza que surge na véspera das celebrações anuais é apenas uma “maquilhagem" política: “Como está a chegar o 4 de Fevereiro, mandaram uma equipa de limpeza, mas o lugar deixou de merecer atenção da Administração [Municipal do Cazenga] há muito tempo”. 

Entre os mais jovens, a percepção é semelhante. Eusébio Mendonça, 29 anos, recorda que o local, considerado ponto de lazer para as famílias, já teve organização e até internet gratuita. 

“Antes, havia mais fiscalização e organização. Hoje, muita gente evita passar aqui, porque os assaltos acontecem mesmo à luz do dia”, denuncia.

Muito lixo no interior do monumento

Limpezas paliativas

Pedro Chinga, outro residente desde 1993, resume a inversão de valores com uma frase cortante: "A lavra do camponês vale mais do que o campo dos heróis”. E desmistifica: “O camponês tem o cuidado de limpar e cuidar da sua lavra, ao contrário das autoridades, que não conseguem preservar  um monumento de valor histórico para o País”.

Segundo relatos recolhidos no bairro, promessas de reabilitação são recorrentes, mas as intervenções têm-se limitado a limpezas pontuais em períodos comemorativos.

Inaugurado em Setembro de 2005 com um custo de cerca de 5 milhões de dólares, o Marco Histórico do 4 de Fevereiro foi construído em honra à memória dos heróis que lutaram pela Independência Nacional. O monumento tem 24 metros de altura e conta com duas estátuas de seis metros que simbolizam Comandantes.

Administração com discurso de esperança quanto à recuperação do recinto

Monumento poderá conhecer dias melhores

À  E&M, a administradora Municipal do Cazenga, Nádia Neto, garante que o Marco Histórico vai entrar em obras este ano, e que a sua reabilitação integra a carteira de projectos aprovada superiormente.

“É uma preocupação também de sua excelência senhor governador e também do chefe do Titular do Poder Executivo que este tão importante monumento entre em obras”, afirma.

Segundo a responsável, decorrem os trâmites administrativos para o arranque das obras, mas sem calendário público definido: “É um monumento que vai entrar em obras, é uma luta antiga e conseguimos finalmente a validação para que entre em obras ainda este ano”, reforça. 

Nádia Neto reconhece o estado de degradação em que o monumento se encontra e assume que, com as obras, a intenção é “voltar a dar dignidade” ao tão grande monumento, e devolvê-lo à sociedade, tão logo a obra seja concluída.

Meninos aproveitam-se das instalações abandonadas para partidas de futebol

Inscrição no PAC do GPL de 2026

Segundo apurou a E&M com base no Plano Anual de Contratação do Governo da Província de Luanda para este ano, estão inscritos mais de 1,5 mil milhões de kwanzas para a reabilitação do Marco Histórico do Cazenga.