“Lastimável”, “crítico”, “vergonhoso”. É com estes adjectivos de desolação que os moradores do Cazenga, em Luanda, descrevem o actual estado do Marco Histórico do 4 de Fevereiro. O monumento, erguido para imortalizar o Início da Luta Armada de Libertação Nacional, definha, hoje, entre o lixo, a destruição e o esquecimento.
Onde outrora placas de bronze honravam os nomes daqueles que, de catana nas mãos, desafiaram o colonialismo na Cadeia de São Paulo, hoje restam apenas as marcas de "gangues" e grafites de vandalismo. Pedestal com mosaicos destruídos, repuxos degradados e inoperantes, muros e vedações danificados e jardins secos ou sem relva compõem o cenário, constatou a Economia & Mercado no local, nesta terça-feira, 3.
Concebido como espaço de memória colectiva, o perímetro do monumento, que deixou de receber obras de manutenção há vários anos, é agora usado para actividades informais, como oficinas improvisadas para a reparação e lavagem de viaturas e motorizadas, além de servir como depósito de resíduos sólidos e águas residuais.
À noite, segundo moradores, a insegurança agrava-se. O local é apontado como ponto de consumo de drogas e prostituição. A poucos metros, funciona uma esquadra policial, cuja proximidade, dizem os residentes, não tem sido suficiente para travar a criminalidade.
Na manhã de terça-feira, 3 de Fevereiro, o som das vassouras, pás e carros-de-mão da ELISAL rompeu o silêncio do descanso dos moradores e de quem usa o espaço para passagem ou simplesmente se sentar. Para os moradores, porém, o gesto não é de zelo, mas de cinismo.
“É tudo truque”, desabafa José Irineu, habitante local, que acrescentou: “Essa limpeza é o tapete vermelho estendido para as comitivas oficiais que, por algumas horas, fingirão que o monumento não está a morrer”, referindo à comemoração do 4 de Fevereiro, data que o monumento homenageia.

“Os nossos heróis não merecem isto”
Por sua vez, António Miguel, morador do Cazenga há mais de sete décadas, testemunha do erguer do monumento, carrega a cronologia do descaso nos olhos.
"Vínhamos contar histórias sobre o 4 de Fevereiro aos mais novos. É triste [o que se vê hoje do monumento]. Os nossos heróis não merecem isto", lamenta, recordando o tempo em que o espaço era verde e vibrante.
Reforça que a limpeza que surge na véspera das celebrações anuais é apenas uma “maquilhagem" política: “Como está a chegar o 4 de Fevereiro, mandaram uma equipa de limpeza, mas o lugar deixou de merecer atenção da Administração [Municipal do Cazenga] há muito tempo”.
Entre os mais jovens, a percepção é semelhante. Eusébio Mendonça, 29 anos, recorda que o local, considerado ponto de lazer para as famílias, já teve organização e até internet gratuita.
“Antes, havia mais fiscalização e organização. Hoje, muita gente evita passar aqui, porque os assaltos acontecem mesmo à luz do dia”, denuncia.

Limpezas paliativas
Pedro Chinga, outro residente desde 1993, resume a inversão de valores com uma frase cortante: "A lavra do camponês vale mais do que o campo dos heróis”. E desmistifica: “O camponês tem o cuidado de limpar e cuidar da sua lavra, ao contrário das autoridades, que não conseguem preservar um monumento de valor histórico para o País”.
Segundo relatos recolhidos no bairro, promessas de reabilitação são recorrentes, mas as intervenções têm-se limitado a limpezas pontuais em períodos comemorativos.
Inaugurado em Setembro de 2005 com um custo de cerca de 5 milhões de dólares, o Marco Histórico do 4 de Fevereiro foi construído em honra à memória dos heróis que lutaram pela Independência Nacional. O monumento tem 24 metros de altura e conta com duas estátuas de seis metros que simbolizam Comandantes.

Monumento poderá conhecer dias melhores
À E&M, a administradora Municipal do Cazenga, Nádia Neto, garante que o Marco Histórico vai entrar em obras este ano, e que a sua reabilitação integra a carteira de projectos aprovada superiormente.
“É uma preocupação também de sua excelência senhor governador e também do chefe do Titular do Poder Executivo que este tão importante monumento entre em obras”, afirma.
Segundo a responsável, decorrem os trâmites administrativos para o arranque das obras, mas sem calendário público definido: “É um monumento que vai entrar em obras, é uma luta antiga e conseguimos finalmente a validação para que entre em obras ainda este ano”, reforça.
Nádia Neto reconhece o estado de degradação em que o monumento se encontra e assume que, com as obras, a intenção é “voltar a dar dignidade” ao tão grande monumento, e devolvê-lo à sociedade, tão logo a obra seja concluída.

Inscrição no PAC do GPL de 2026
Segundo apurou a E&M com base no Plano Anual de Contratação do Governo da Província de Luanda para este ano, estão inscritos mais de 1,5 mil milhões de kwanzas para a reabilitação do Marco Histórico do Cazenga.

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