O sol brilha em Moçambique, mas o país volta a sofrer um revés das cheias e inundações provocadas pelas chuvas intensas que caem quase em todo o território nacional. É a segunda vaga desta catástrofe que assola milhares de moçambicanos num espaço de dois meses.
Quando tudo parecia que Moçambique já começava a respirar de alívio após as enxurradas de Dezembro e Janeiro que chegaram a isolar a capital Maputo do resto país por via rodoviária, colocando mais de 800 mil pessoas em centros de assentamento, as chuvas voltaram à carga neste mês de Março. A precipitação de acima de 50 milímetros (mm) que cai em todas as províncias de Moçambique, voltou a interromper a circulação rodoviária em vários pontos, provocando inundações urbanas tanto em zonas rurais. Mas o alerta é ainda maior. Com base em previsões da Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos, o Centro Nacional Operativo de Emergência (CENOE), indicam para a ocorrência de cheias de intensidade moderada a alta.
A situação, segundo o CENOE, poderá colocar em perigo várias comunidades localizadas em zonas baixas e ribeirinhas. “O cenário é preocupante, pois se prevê a ocorrência de inundações de moderada a alta magnitude”, refere um documento do CENOE.
Só na província de Gaza, sul de Moçambique, as chuvas fortes inundaram novamente mais de 390 hectares de campos agrícolas, o que vai agravar ainda mais a crise de abastecimento de produtos, segundo o INGD – Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres. Segundo o INGD, a intensa chuva que causou o transbordo do rio Limpopo, isolando por via terrestre o distrito do resto da província.
“Neste momento, a assistência alimentar e a alocação de medicamentos é feita através de embarcações”, refere a presidente do INGD, Luísa Meque, sublinhando que ainda na zona sul do país, sobretudo na província de Inhambane, mais de 5 mil pessoas estão a ser afectadas por inundações decorrentes do transbordo Rio Save.
Risco eminente em todo país
As autoridades hídricas moçambicanas emitiram, esta semana, comunicados de emergência devido ao aumento drástico do caudal dos rios, provocado por chuvas intensas. Várias províncias enfrentam o risco iminente de inundações, com especial preocupação para as zonas baixas e ribeirinhas.
O cenário hidrológico em Moçambique agravou-se significativamente, levando a Administração Regional de Águas (ARA) a emitir alertas críticos para as regiões Sul e Norte do país. A subida dos níveis das águas ameaça habitações, infra-estruturas económicas e a segurança das populações em diversos distritos.
No sul do país, a ARA-Sul emitiu um comunicado especial alertando para o incremento dos escoamentos provenientes de montante nos rios Limpopo, Nwanetsi, Shinguedzi e Elefantes. Prevê-se que os níveis nas estações de Combomune, Chókwè e Sicacate continuem a subir, permanecendo acima do nível de alerta e agravando a situação actual.
Os impactos previstos incluem o agravamento de inundações em zonas baixas, afetando severamente localidades como Incoluane, Gueleguele, Chaimite, Muianga, Chiduachine, Sangene e Sicacate. Há ainda um risco específico na confluência dos rios Elefantes e Limpopo, onde o fluxo pode ultrapassar o dique de Machua, atingindo as baixas das aldeias de Djodjo e 25 de Setembro, bem como os bairros 2 e 5 da cidade do Chókwè.
A situação é igualmente preocupante no norte do país. Na bacia do rio Licungo, a ARA-Norte registou uma precipitação extrema de 199,3 mm na estação de Tacuane. Em Mocuba, o rio atingiu os 6,08 metros, ultrapassando a marca de alerta. Esta subida poderá afectar os distritos de Maganja da Costa, nomeadamente os postos administrativos de Nante e a sede, o distrito de Namacurra, incluindo Macusse, e o município de Mocuba, na província central moçambicana da Zambézia.
Simultaneamente, na bacia do rio Lúrio, o risco de cheias urbanas é classificado como moderado a alto para a cidade de Cuamba e a vila de Malema. A precipitação atingiu valores muito elevados, com destaque para os 188,7 mm em Caronga. Em Cuamba, os bairros com maior risco são Mademo, Adine, 3 de Fevereiro, Maganga, Rimbane, Mujaua, Aeroporto, Mutxora e Nacaca. Na vila de Malema, a atenção recai sobre os bairros Pedreira, Namuela, Mejeje, Oitavo Congresso, Gome e Mpeneca.
Perante este cenário de risco, as autoridades apelam à tomada de medidas de precaução imediatas por parte de todas as entidades públicas, privadas e cidadãos em geral. É recomendada a retirada imediata de pessoas e equipamentos, como maquinaria agrícola e pequenas embarcações, das margens e leitos dos rios, sob risco de serem arrastados pela força das águas.
As autoridades reforçam ainda o apelo para que a população não tente atravessar pontes ou passagens molhadas e que abandone prontamente as zonas de risco. A monitorização da situação continuará a ser feita pelas entidades competentes, recomendando-se o acompanhamento constante da informação hidrológica oficial para garantir a segurança de todos.
Época chuvosa mortífera
Moçambique está em plena época chuvosa, que iniciou em Outubro passado e deveria terminar em finais de Março deste ano. Contudo, desta vez, a actual época chuvosa será um pouco prolongada que as anteriores, devido estender-se até meados de Abril, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM).
De acordo com o INAM, o período da época chuvosa em Moçambique tem sido marcado por alertas de chuvas e ventos fortes, principalmente nas zonas Centro e Sul do país, com as autoridades a activarem acções de antecipação às cheias e inundações. E os estragos têm sido sombrios, desde as mortes e destruição de infra-estruturas sociais.
A actual época chuvosa no país provocou 279 mortes e afectou cerca de 900 mil pessoas desde outubro, segundo dados actualizados pelo INGD. O balanço mais recente indica ainda 11 desaparecidos e 340 feridos, reflectindo o agravamento da situação à medida que a estação das chuvas, que decorre até Abril, continua a provocar danos em várias regiões do país.
As cheias registadas em Janeiro foram responsáveis por grande parte do impacto, tendo causado 43 mortos, 147 feridos e nove desaparecidos, além de afectarem mais de 715 mil pessoas. Já o ciclone Gezani que atingiu a província de Inhambane em Fevereiro provocou quatro mortes e afectou mais de nove mil pessoas, agravando um cenário já considerado crítico.
Deste modo, em resposta à crise, o INGD activou 155 centros de acolhimento, dos quais 25 permanecem em funcionamento, acolhendo milhares de deslocados, enquanto as operações de resgate já assistiram quase sete mil pessoas.

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