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“O consumo per capita de café em Angola ainda é reduzido face à média internacional”

Victória Maviluka
23/6/2026
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Foto:
Victória Maviluka

David Freitas, diretor-geral da WINRESOURCES, empresa contratada no âmbito do projecto Mukafe, fala das conclusões do estudo para o desenvolvimento da produção de café em Angola.

Quais são os resultados principais do estudo encomendado pelo Instituto Nacional do Café (INCA) para caracterizar a estrutura de consumo do café em Angola: barreiras, oportunidades e os desafios futuros?

Os principais resultados demonstram que o consumo per capita de café em Angola ainda é reduzido face à média internacional. Estamos a falar de 0,8 kg per capita por ano. E há aqui um espaço muito grande para crescer, especialmente num País que é produtor, e produtor de café de qualidade, nomeadamente a variedade robusta, mas também com potencial para produzir bons cafés arábicas, em zonas de maior altitude. Há aqui um espaço de crescimento que tem que ser capitalizado pelas diversas entidades existentes no mercado e que lidam, de uma forma ou de outra, com este sector de actividade.

Quais são as recomendações do estudo?

A primeira recomendação é basicamente organizar a fileira e de forma a que ela interaja a uma só voz, criando mecanismos de integração entre a produção e a comercialização, passando, obviamente, pela transformação. Muito foco na criação de cooperativas de pequenos produtores, mas cooperativas operacionais, que tenham o foco em ganhar escala, em ganhar escala comercial. Ou seja, eu, quando sou pequeno, produzo pouco, o meu preço de venda está muito condicionado à minha dimensão. Se eu ganhar escala e peso, por me associar consigo e com o resto dos players que existem, consigo negociar mais barato os vários custos de produção, e negociar e vender o produto mais caro; ganho dimensão comercial. Isso é uma das recomendações que o estudo faz. Ou seja, agregar valor criando cooperativas de produtores operacionais, não cooperativas políticas, [mas] cooperativas operacionais que trabalhem a montante e a jusante na fileira, e que integrem o sector produtivo, mas que também não criem barreiras à interligação entre a produção e o mercado, especialmente os mercados que são emergentes, nomeadamente o mercado europeu, mas também o mercado asiático e outros, que têm uma margem de crescimento muito grande para o consumo de café. E Angola deve, de uma vez por todas, aproveitar essa capacidade produtiva para crescer.

Fala-se muito aqui da cadeia de valor do café. Qual é o lugar da logística nessa conversa toda e no estudo?

A logística é determinante, porque Angola tem um longo caminho pela frente no sentido de melhorar as condições de escoamento das produções. As infra-estruturas têm que melhorar, as estradas, tudo isto tem que melhorar. A questão logística é determinante na vantagem competitiva. Porque se tenho um produto, bom que seja, mas por factores que têm a ver com os custos de transporte, os custos de escoamento da produção, essa vantagem competitiva acaba, esgota-se e perde, e o café angolano passa a ter preços proibitivos, que não permitem estar no mercado internacional.

O café angolano tem qualidade, é caro relativamente ao mercado internacional?

O café angolano tem qualidade. A questão do preço tem a ver com a produção por hectare. Ou seja, qual é o problema? Eu produzo pouco por hectare… obviamente, é uma questão económica… ao produzir pouco por hectare, encareço o produto. Porque, para o mesmo custo de produção, produzo muito menos, e portanto, para um custo operacional grande, tenho receitas pequenas face ao potencial que podia ter. E isso urge corrigir e colmatar, porque tenho que ter maior produção por hectare para tornar o café angolano efetivamente competitivo nos mercados internacionais. Não é com estes indicadores de baixa produção por hectare que se consegue ultrapassar estes constrangimentos.

O que o estudo traz em termos de geografias de produção de café em Angola?

As três principais províncias de produção, estamos a falar do Uíge, Cuanza-Norte e Cuanza-Sul, onde se produz o café robusta em variedades muito típicas de Angola, e que são muito reconhecidas em termos internacionais: Ambriz, Amboim e outras. Mas também há potencial para crescimento do arábica em zonas de maior altitude, em que o frio seja uma realidade, e há também espaço para esse crescimento.

Quanto tempo levou a elaboração deste estudo?

Foi um estudo que demorou quatro meses a realizar. Este estudo já aponta um caminho, mas precisa de ser fortalecido ainda com mais elementos e mais dados que reforcem e dêem peso ao trabalho. Portanto, não podemos resolver tudo com este estudo; já indica um caminho muito concreto sobre qual é que é o posicionamento do INCA e do Mukafe no desenvolvimento desta fileira, deste sector de actividade, mas é preciso, obviamente, continuar a trabalhar e a desenvolver outros trabalhos e outros estudos.

Qual é o apetite dos mercados internacionais pelo café angolano?

Toda a União Europeia, especialmente o Norte da Europa. Estamos a falar dos Países Baixos, da Suécia, da Alemanha, da Dinamarca... esses países do Norte da Europa todos eles têm apetite por café. Cada vez o consumo de café é maior nesses países. Depois, acho que a Ásia, especialmente o Japão e a China, são mercados com muito potencial. Os países do Golfo… Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos... E os Estados Unidos, obviamente, porque, apesar de actualmente existirem um conjunto de barreiras à entrada de produtos, Angola beneficia do acordo AGOA, e esse acordo pode ajudar muito as exportações de café angolano para os Estados Unidos.