David Harvey, Henri Lefebvre, Milton Santos e tantos outros já alertaram para os perigos da “mercantilização do espaço” e da gentrificação. O que antes parecia apenas uma tendência global, hoje manifesta-se de forma concreta em Luanda. A valorização acelerada do mercado imobiliário, somada a projectos de requalificação urbana e guiada por interesses voltados ao lucro, tem provocado deslocamentos silenciosos, desfeito comunidades e aprofundado desigualdades socioespaciais. Nesse cenário, a teoria crítica deixa de ser mera reflexão académica e torna-se ferramenta indispensável para compreender e enfrentar os impactos da “urbanização neoliberal” que começa a se consolidar na principal cidade do País.
Enquanto uma minoria concentra investimentos e funciona segundo a lógica da exclusividade, a maioria da população é empurrada para bairros informais, carentes de infra-estruturas básicas e equipamentos colectivos. Essa dinâmica não é apenas económica, mas também social: redefine quem pode habitar em áreas privilegiadas e quem é relegado a espaços sem condições adequadas de urbanização. O espaço urbano, que deveria ser lugar de convivência e inclusão, transforma-se em palco de desigualdades cada vez mais evidentes.
Sem uma metodologia clara, baseada em matriz de risco capaz de corrigir as segmentações existentes, o “urbanismo neoliberal” continuará a consolidar uma urbanização de exclusão. O resultado será a erosão da coesão social e o comprometimento do futuro de outras cidades, concebidas como mercadoria, mas vividas como espaços de luta pela dignidade.
Esses espaços urbanos, contudo, têm sido alvo constante de intervenções do sector público, seja por meio de realojamentos, requalificações ou obras de infra-estruturas. O problema é que tais acções, em vez de responder às necessidades reais das populações, acabam por reflectir apenas a lógica da expansão urbana, o que tem gerado conflitos entre os Stakeholders - actores e aprofundado as desigualdades.
O processo de realojamento, frequentemente conduzido sem atenção às necessidades específicas e às dinâmicas sociais das comunidades afectadas, tem produzido consequências negativas de grande alcance. Entre os efeitos mais visíveis está a transferência de famílias para áreas distantes dos locais onde antes desenvolviam suas principais actividades económicas, o que tem fragilizado meios de subsistência já precários. Junta-se a isso o desmantelamento de redes sociais e comunitárias consolidadas, que funcionavam como suporte afectivo e de solidariedade, e a redução significativa no acesso a serviços básicos essenciais para uma vida urbana digna.
Essas dinâmicas não apenas desestruturam modos de vida, mas também intensificam processos de gentrificação e consolidam padrões de exclusão socioespacial. O espaço urbano, nesse contexto, converte-se em palco de tensões entre projectos de modernização e as realidades concretas das populações, evidenciando que políticas de ordenamento, quando desvinculadas da dimensão humana, tendem a transformar o direito à cidade em privilégio restrito a poucos.
Neste contexto, a gentrificação não se limita a uma transformação estética; ela reabre o debate sobre as “metamorfoses do espaço habitado”, lançado pelo geógrafo Milton Santos e, em Angola, aprofundado pela arquitecta e professora Ângela Mingas na sua tese de doutoramento “Signos Espaciais dos Musseques - Interpretação do tecido urbano do Catambor”.
O processo evidencia-se quando bairros populares passam por obras de requalificação e, gradualmente, deixam de ser acessíveis, atraindo apenas quem pode pagar mais. Ruas mais limpas e edifícios novos escondem um efeito perverso: o aumento do custo de vida e a expulsão silenciosa de famílias de baixa renda. Essas famílias são empurradas para periferias frágeis, que rapidamente se tornam alvo de novas intervenções, alimentando um círculo vicioso de exclusão.
No contexto urbano de Luanda, esse fenómeno, ainda em estágio embrionário, já desfaz laços comunitários forjados ao longo de gerações, destrói redes de solidariedade e enfraquece modos de vida que conferiam identidade aos bairros. A gentrificação não se limita a uma transformação física: aprofunda desigualdades, converte o direito à cidade em privilégio de poucos, apaga memórias colectivas e desumaniza territórios que antes pulsavam de vida popular.
Outro aspecto relevante sobre a gentrificação é o deslocamento intra-urbano, também conhecido como movimento pendular. Esse fenómeno ocorre quando populações residentes em áreas periféricas, muitas vezes já submetidas a experiências anteriores de expulsão ou reassentamento, são transferidas para áreas urbanas mais consolidadas. Contudo, os efeitos da gentrificação, novamente, tendem a empurrá-las para bairros compatíveis com sua condição socioeconómica inicial, perpetuando, assim, um círculo estrutural de deslocamentos e exclusões.
A gentrificação pode parecer progresso, mas na prática destrói comunidades. O que se apresenta como modernização urbana esconde um processo cruel de desenraizamento, destruição de memórias e perda de identidade colectiva, transformando bairros vivos em territórios de exclusão.
Diante desse cenário, é inegável que as políticas públicas, especialmente no sector da habitação, deveriam ser concebidas de forma inclusiva, tanto social quanto territorialmente. Não se trata de excluir ninguém, mas de assegurar que todos possam permanecer, pertencer e participar das transformações da cidade. O direito à cidade não pode ser privilégio de poucos, mas conquista colectiva, o que implicaria, necessariamente, uma mudança estrutural.
Dessa forma, o que se precisa é de políticas públicas que coloquem o direito à cidade acima da lógica especulativa, garantir que o espaço urbano seja concebido como bem comum, e não reduzido a mero activo financeiro. Caso contrário, estaremos a consolidar um modelo de urbanização de exclusão, que compromete não apenas o presente, mas também o futuro das nossas cidades.

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