Falar de cancro é falar de uma realidade transversal à sociedade contemporânea. Trata-se de um conjunto de doenças marcado pelo crescimento desorganizado de células anormais, capaz de afectar o corpo de forma profunda e duradoura. Hoje, o cancro toca pessoas de todas as idades, géneros e contextos sociais, sem distinção de condição económica, cultural ou religiosa, impondo-se como um dos maiores desafios de saúde pública do nosso tempo.
É um tema que aflige e inquieta, levantando inúmeras incertezas, mesmo sendo amplamente estudado. O medo e o receio associam-se, muitas vezes, à morte, ao futuro e à invalidez, como sucede quando se antecipa a perda da mama ou do útero. Estas inquietações surgem, quer quando a doença nos afecta directamente, quer quando é vivida através de familiares, amigos, colegas ou pacientes. Enquanto médicos, reconhecemos que é relativamente fácil sensibilizar e encorajar pessoas que vivem com o problema; no entanto, enfrentar a doença na primeira pessoa revela-se, sem dúvida, extremamente difícil.
No nosso país, com base nas observações e vivências clínicas, constata-se que, para além dos medos já referidos, persistem informações contraditórias sobre as possíveis causas do cancro e a forma como surge. Na visão de muitas pessoas, estas explicações assentam em mitos, como a atribuição da doença a fenómenos sobrenaturais, feitiçaria, mau-olhado, contágio por contacto próximo, partilha de objectos ou, ainda, à ideia de que se trata de uma doença exclusiva de pessoas ricas.
Tudo o que foi exposto está intimamente ligado aos medos e mitos que envolvem este importante problema de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o cancro “deixou de ser uma crise silenciosa em África para se tornar numa emergência de saúde pública crescente”. Em 2022, foram diagnosticados cerca de 20 milhões de novos casos em todo o mundo, com um número de mortes estimado entre 9,7 e 10 milhões.
Em Angola, dois estudos realizados por médicos angolanos, nomeadamente Armando A. et al. (2016) e Miguel F. (2020), apresentaram frequências semelhantes nos principais tipos de cancro: cancro da mama (20,5% versus 21,4%), cancro do colo do útero (16,5% versus 16,8%) e cancro da próstata (7,1% versus 4%). Apesar do intervalo de anos entre os estudos, os resultados não revelam diferenças significativas, o que suscita uma reflexão preocupada: será esta aparente estabilidade real? Muito provavelmente não. A abertura de novas unidades especializadas, por si só, também não parece suficiente para resolver o problema, uma vez que muitas entraram em funcionamento apenas recentemente.
Esta realidade encontra respaldo nas palavras do Director Regional da Organização Mundial da Saúde para África, em 2026, quando afirmou: “Por detrás dos números estão mães, pais, crianças e jovens cujas vidas são encurtadas não porque não existam soluções, mas porque o acesso a essas soluções continua a ser desigual.”
E acrescentou: “Demasiadas vezes, uma mulher é rastreada, mas não tratada; demasiadas vezes, uma criança é diagnosticada tardiamente; e demasiadas vezes, as famílias têm de escolher entre procurar cuidados de saúde e satisfazer as necessidades básicas.”
Concluindo de forma clara: “Isto não é aceitável.”
Perante este cenário, importa questionar o que tem sido feito, e o que está a ser feito, para reduzir o impacto deste problema na população. A Organização Mundial da Saúde, em articulação com o Governo, parceiros e comunidades, reafirma um compromisso inequívoco, sustentado na realidade angolana: o cancro pode ser prevenido através da vacinação, do reforço da educação para a saúde, da prática regular de exercício físico e de uma alimentação saudável, com redução do consumo de alimentos processados, carnes vermelhas e bebidas açucaradas e alcoólicas.
A detecção precoce assume igualmente um papel central, através da citologia no teste de Papanicolau para o cancro do colo do útero, da mamografia para o cancro da mama, bem como da tomografia computorizada e da ressonância magnética no diagnóstico do cancro do pulmão, da próstata e de outros tipos. O tratamento exige uma abordagem multidisciplinar, que inclui cirurgia, quimioterapia e radioterapia.
Em conclusão, o cancro, enquanto conjunto de doenças, encerra medos, receios e incertezas relacionadas com a morte, o futuro e a invalidez, atingindo e ceifando a vida de milhares de pessoas. Trata-se, no entanto, de um problema prevenível e, em muitos casos, tratável. A educação para a saúde, sobretudo no contexto da nossa sociedade, aliada a um compromisso e envolvimento colectivos, constitui um caminho essencial para reduzir o impacto desta doença.

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