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Aviação: Estudo revela que só 64% das mulheres se sentem respeitadas no local de trabalho

Amilton Victor
23/7/2026
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Foto:
DR

Salários inadequados, escassas de oportunidades de progressão e cultura organizacional pouco inclusiva entre os principais factores que levam ao abandono da carreira.

A pesquisadora e vice-directora do Global Institute for Women’s Leadership da Universidade Nacional da Austrália (ANU), Elise Stephenson, revelou, a partir de um estudo global sobre igualdade do género no sector da aviação civil, que 64% das mulheres se sentem respeitadas no ambiente profissional e uma em cada quatro mulheres não recebe o mesmo tratamento.

Os dados apresentados nesta quarta-feira, 23, na 3.ª Cúpula Global da ICAO, dão conta que grande parte das mulheres inqueridas afirmou não receber o mesmo nível de respeito que os homens na indústria, porque a cultura organizacional da aviação continua a privilegiar características tradicionalmente associadas à masculinidade.

Estas percepções, aponta a investigação, são consistentes em diferentes países, regiões e contextos culturais, demonstrando que se trata de um desafio global para o sector.

Segundo Elise Stephenson, no que diz respeito à progressão na carreira, 56% das participantes afirmaram terem sido promovidas, mas uma parte significativa (44%) considera que os critérios de promoção não são transparentes nem justos.

Entre os principais obstáculos mencionados estão as reduzidas oportunidades de ascensão, a falta de apoio institucional, processos de promoção pouco claros ou excessivamente informais e o acesso limitado a funções de elevada visibilidade ou responsabilidade operacional.

O levantamento também identificou níveis preocupantes de discriminação e assédio. Neste tema, cerca 76% das mulheres inquiridas relataram ter sofrido algum tipo de discriminação ou assédio durante a carreira, ao passo que um quarto afirma nunca ter registado. As formas mais frequentes incluem discriminação indirecta, assédios verbal e sexual, microagressões e bullying.

A maioria dos casos ocorreu no ambiente de trabalho, envolvendo colegas, supervisores ou gestores, embora uma parcela significativa tenha referido episódios praticados por passageiros, clientes ou parceiros externos.

Apesar da elevada incidência destes comportamentos, muitas vítimas optam por não recorrer aos mecanismos formais de denúncia. Neste sentido, cerca de 25% confrontaram directamente o agressor, enquanto 23% não tomaram qualquer iniciativa. Porém, apenas uma em cada 5 mulheres ​​(19%) apresentou queixa à organização, mas classificou a resposta como inadequada, evidenciando a necessidade de reforçar os mecanismos de prevenção, denúncia e protecção das vítimas. No entanto, só 15% optaram por mecanismos formais de denúncia.

O estudo analisou igualmente a cultura organizacional, identificando a persistência de linguagem e práticas pouco inclusivas. Cerca de 24% das participantes consideram que a utilização recorrente de terminologia predominantemente masculina contribui para um ambiente menos acolhedor.

Além disso, foram reportados estereótipos de género, comentários ‘sexistas’ e outras formas de exclusão que afectam o sentimento de pertença e permanência de mulheres no sector. Aspectos como nacionalidade e raça também moldam as experiências profissionais, relata o estudo.

Relactivamente à remuneração, apenas 14% das inquiridas afirmaram conhecer a existência de uma política de igualdade salarial nas respectivas organizações. Entre as que identificaram diferenças salariais, mais de um 1/3 (49%) considera que estas favorecem os homens e apenas 5% entendem que beneficiam as mulheres. Entretanto, uma em cada três mulheres desconhece qualquer política sobre o tema.

As condições físicas de trabalho constituem outro desafio identificado pela investigação. Aqui, uma em cada dez mulheres consideraram que os uniformes, equipamentos de protecção e instalações não foram concebidos para responder à diversidade dos corpos femininos, enquanto 39% afirmaram desconhecer  padrões definidos.

Apesar dos desafios, do ponto de vista geral, 78% das participantes afirmaram pretender continuar a trabalhar na aviação e uma em cada quatro mulheres pretendem abandonar. Contudo, das 78% que afirmaram pretender continuar, apenas 26% pretende assumir novas funções no futuro, demonstrando a importância de criar percursos claros de progressão profissional.

Entre os principais factores que poderiam levar ao abandono da carreira destacam-se salários inadequados, dificuldades na conciliação entre vida profissional e pessoal, escassas oportunidades de progressão e uma cultura organizacional pouco inclusiva.

O estudo conclui que a percepção das mulheres sobre a evolução do sector se deteriorou nos últimos anos. Comparativamente ao momento em que ingressaram na aviação, aumentou a proporção das que consideram que a situação das mulheres permaneceu igual ou piorou, enquanto diminuiu significativamente o número das que acreditam que houve melhorias.