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Crise de divisas e “iminente” queda do metical colocam empresariado moçambicano em alerta

Hermenegildo Langa
5/2/2026
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Foto:
DR

A crise de divisas em Moçambique tem suscitado inúmeros debates no seio do empresariado, mas ainda não há solução para tal, deixando os homens de negócios numa incerteza.

Há mais de dois anos em que a economia moçambicana vem se ressentindo da escassez de divisas, sobretudo o dólar americano, o euro e o rand sul-africano. A situação ficou ainda mais patente no ano passado logo após as manifestações pós-eleitorais de 2024, chegando até o sector privado a antever o colapso dos negócios e acusar o banco central de ignorar a crise na banca nacional. De lá para cá, nada mudou, mas há um novo alerta que poderá agudizar ainda mais a crise no mercado moçambicano: a desvalorização do metical, a moeda moçambicana.

O problema da crise de divisas em Moçambique tem suscitado inúmeros debates no seio do empresariado, contudo a solução tarda por acontecer, deixando os homens de negócios numa incerteza. O Governo juntamente com o regulador do sistema financeiro (Banco de Moçambique BdM), embora não assumam a existência da crise como tal, têm vindo a se limitar em buscar soluções com vista a evitar um possível colapso da economia.

Para o sector privado, a crise de divisas no mercado moçambicano tem vindo a comprometer de certa forma toda actividade económica, desde o nível micro até macro. Segundo a Confederação das Associações Económicas (CTA) de Moçambique, no Mercado Cambial Interbancário, a liquidez continua baixa e com fontes limitadas há mais de dois anos. Mesmo assim, o BdM ‘sugou’ a moeda externa do mercado através das Reservas Obrigatórias, estimadas em 113,4 milhões de meticais (1,8 milhões de dólares), bem como cerca de 18 mil milhões de meticais (286 milhões de dólares) através de compras diversas de divisas no mercado.

“Essas divisas foram usadas, essencialmente, para cobrir necessidades do serviço da dívida pública externa, dado que em nenhum momento o BdM alimentou o mercado”, refere a CTA em respostas às questões enviadas pela Revista Economia & Mercado (E&M), recordando que a situação chegou a comprometer o abastecimento de combustíveis nos principais centros urbanos no ano passado.

A reclamação da CTA sobre divisas tem sido frequente, contudo as soluções ainda não se fazem sentir. Há dias, reagindo a nova decisão do banco central em reduzir a taxa de política monetária (taxa MIMO), de 9,50% para 9,25%, mantendo inalterados os coeficientes de Reservas Obrigatórias em 29% para os passivos em moeda nacional e 29,5% para os passivos em moeda estrangeira, a agremiação frisou que apesar da medida ser oportuna peca ainda por ser conservadora e não abranger a questão das divisas.

“A redução da taxa MIMO deve ser acompanhada por intervenções mais activas no mercado cambial interbancário, nomeadamente através do aumento da injecção de divisas, de modo a aliviar a pressão cambial, reduzir custos de importação e criar um ambiente mais estável para o planeamento empresarial”, defende o empresariado moçambicano, salientando que “a conjugação destas medidas reforçaria significativamente o impacto da política monetária sobre o sector produtivo”.

À semelhança do sector privado, o economista-chefe do Standard Bank Moçambique, Fausio Mussá entende que a escassez de divisas no mercado cambial poderá contribuir para uma “recuperação lenta economia este ano profundamente afectada pelas cheias e inundações, advertindo a persistência de pressões fiscais e dificuldades de liquidez”.

Numa análise produzida mensalmente pela instituição, o economista-chefe reitera que embora existam expectativas positivas relacionadas com o avanço dos projectos de gás natural liquefeito (GNL) no médio prazo, a conjuntura cambial poderá deteriorar-se nos próximos meses, comprometendo a capacidade de resposta da economia moçambicana às necessidades externas. “Acreditamos que as pressões fiscais associadas à liquidez no mercado cambial podem intensificar-se no curto prazo”, afirmou.

Recorde-se que o Centro de Integridade Pública (CIP), uma entidade não-governamental moçambicana vocacionada na fiscalização de políticas e finanças públicas denunciou, no ano passado, sobre uma suposta estratégia do Banco de Moçambique em “provocar” a escassez de divisas para estabilizar o metical estar por detrás da crise do dólar e do euro no mercado moçambicano. Na sua publicação, o CIP apelou ao reforço do diálogo entre o BdM, os bancos comerciais e outros agentes económicos, como medida urgente para enfrentar a escassez de divisas que afecta o sistema financeiro nacional.

Falando na apresentação do relatório preliminar sobre a escassez de divisas no País, o director executivo do CIP, Edson Cortez, considera que uma negociação directa entre o governador do BdM, dirigentes bancários e representantes do sector privado poderá aliviar a pressão sobre o mercado financeiro. “Se o governador do Banco de Moçambique e os gestores seniores dos bancos se sentarem [todos juntos] poderão, eventualmente, mudar algum dos seus dogmas e a forma de agir”, afirmou Edson Cortez, sublinhando ser necessário pragmatismo para encontrar soluções viáveis para todas as partes.

Metical em alerta

Se por um lado a escassez de divisas no mercado cambial já está a provocar uma crise sem precedentes no seio empresarial , a possível desvalorização do metical poderá acentuar cada vez mais a preocupação na actividade económica moçambicana.

Um relatório da consultora britânica Oxford Economics alerta que Moçambique poderá enfrentar uma desvalorização gradual do metical ao longo do presente ano de 2026, como resposta à acentuada escassez de reservas em moeda externa e à sobrevalorização cambial que tem marcado os últimos anos.

O documento dedicado às perspectivas macroeconómicas da África Subsaariana, a Oxford Economics aponta que Moçambique e outros países africanos enfrentam risco de reestruturação da dívida soberana ou incumprimento financeiro.

“Uma correcção cambial em Moçambique poderá ser uma das condições exigidas no âmbito das negociações em curso para um novo acordo de financiamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI)”, sugere a consultora, sublinhando que a pressão sobre as reservas em moeda externa tem-se intensificado, num contexto marcado pelo elevado serviço da dívida pública, pelo aumento das necessidades de importação e por uma execução orçamental mais dependente do endividamento interno.

À E&M, o economista Clésio Foia, não tem dúvida que a se efectivar, esta será uma situação que poderá desistabilizar a economia moçambicana que já se encontra “fragilizada”, sugerindo que: “o regular deve com urgência adoptar mecanismos para evitar a desvalorização da moeda nacional, pois isto poderá encarecer os custos de importações”.

Clésio Foia acrescenta ainda que a possível desvalorização do metical deve ser encarada com seriedade, “uma vez que a moeda nacional já se encontra fragilizada devido aos recorrentes choques climáticos” que afectam Moçambique.

Partilhando a mesma ideia, o economista Fáusio Mussá alerta para os limites estruturais da política monetária num contexto em que a inflação resulta, em grande medida, de choques de oferta, factores climáticos, rupturas logísticas e pressões cambiais. Para Fáusio Mussá, “a política monetária não resolve cheias, não cria produção agrícola nem corrige falhas de infra-estruturas”.