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Filantropia, Narrativas e Poder Simbólico: Economia Moral da Ajuda e o Olhar sobre Angola

Moniz Sebastião
27/12/2025
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A polarização observada não é um fenómeno isolado, mas expressão de tensões estruturais entre Estado, sociedade civil, actores externos e opinião pública.

A recente controvérsia em torno da actuação da ONG brasileira ZUZU FOR ÁFRICA em Angola expôs fracturas profundas na sociedade angolana e revelou tensões estruturais entre economia, política, narrativa e poder simbólico. O debate, amplamente difundido nas redes sociais e nos meios de comunicação, ultrapassou o campo da solidariedade humanitária para se transformar num fenómeno social complexo, envolvendo representação da pobreza, legitimidade institucional, identidade colectiva e disputa de narrativas.

A acção filantrópica da associação, amplamente mediatizada através de imagens de populações vulneráveis, gerou interpretações divergentes. Uma parte da opinião pública valorizou a ajuda material imediata num contexto de carências estruturais e ausência do Estado. Outra parte interpretou a exposição pública da miséria como uma estratégia de marketing social, geradora de engajamento digital, capital reputacional e visibilidade internacional, levantando preocupações sobre dignidade, instrumentalização da pobreza e assimetria de poder simbólico.

Filantropia, visibilidade e economia do capital simbólico

A sociologia económica e política, particularmente a partir da obra de Pierre Bourdieu, permite compreender a filantropia como um campo onde circulam não apenas recursos materiais, mas também capital simbólico. A ajuda, quando publicamente encenada, converte-se em reputação, autoridade moral e influência. No contexto das economias digitais, essa conversão é acelerada por métricas de visibilidade, engajamento e alcance global.

Este processo não invalida a utilidade imediata da ajuda, mas produz efeitos colaterais relevantes: o beneficiário tende a ser representado como passivo, enquanto o agente externo assume centralidade narrativa. A pobreza, nesse enquadramento, deixa de ser apenas um problema socioeconómico e passa a integrar uma economia moral da exposição, onde o sofrimento se transforma em conteúdo circulável.

Olhar exógeno, olhar endógeno e disputa de narrativas

A análise do intelectual angolano Victor Kajibanga sobre o olhar exógeno e o olhar endógeno sobre África é central para compreender a controvérsia. O olhar exógeno, historicamente dominante, constrói África como espaço de carência, dependência e incapacidade estrutural, frequentemente descontextualizando as causas históricas, políticas e económicas da pobreza. Esse olhar tende a reforçar relações assimétricas entre quem observa, narra e ajuda, e quem é observado, narrado e ajudado.

Em contraste, o olhar endógeno propõe uma leitura a partir de dentro, que reconhece as fragilidades sociais sem abdicar da dignidade, da agência e da historicidade africana. A tensão entre esses dois olhares manifesta-se de forma clara no debate em torno da ZUZU FOR ÁFRICA: enquanto a narrativa externa enfatiza a urgência humanitária, sectores da sociedade angolana interpretam a forma de exposição como continuidade simbólica de uma longa tradição de representação assimétrica do continente.

Colonialidade, memória histórica e economia política da ajuda

A antropologia pós-colonial, com autores como Frantz Fanon, Achille Mbembe e Edward Said, fornece instrumentos analíticos para compreender como a ajuda externa pode reproduzir padrões de colonialidade simbólica, mesmo em contextos pós-independência. A memória histórica africana associa a entrada inicial de agentes externos, frequentemente sob a forma de gestos humanitários e ofertas, a processos posteriores de dominação económica, política e cultural.

Essa herança histórica influencia a recepção contemporânea da filantropia estrangeira, sobretudo quando esta é acompanhada de forte exposição mediática. A ajuda deixa de ser apenas um acto económico ou social e passa a integrar uma disputa mais ampla sobre soberania simbólica, controlo da narrativa e legitimidade moral.

Polarização social, desgaste institucional e deslocamento da indignação

A reacção intensa contra figuras públicas que expressaram posições críticas ou ambivalentes, como o músico C4 Pedro e Sara Cuca, deve ser compreendida num contexto mais amplo de desgaste institucional e frustração social acumulada. A sociologia política demonstra que, em ambientes marcados por desigualdade persistente, fragilidade do Estado e baixa confiança nas instituições, a indignação colectiva tende a ser deslocada para actores simbólicos mais visíveis e acessíveis.

As redes sociais amplificam esse processo ao favorecer discursos simplificados, emocionalmente carregados e polarizados. A complexidade analítica é frequentemente substituída por narrativas binárias, nas quais qualquer questionamento é interpretado como ataque ou traição. O debate público transforma-se, assim, num espaço de confronto moral, e não de deliberação racional.

Estado, regulação e insegurança institucional

A controvérsia ganhou contornos institucionais quando o governo da província do Bengo emitiu uma nota denunciando a actuação ilegal da ONG ZUZU FOR ÁFRICA. Em resposta, a organização apresentou documentação alegando presença contínua no país há oito anos e relações de cooperação com estruturas do Estado. A contradição pública entre versões oficiais e a defesa da associação expôs fragilidades na regulação, na coordenação institucional e na comunicação governamental.

Do ponto de vista económico e institucional, este episódio evidencia a dificuldade do Estado em estabelecer regras claras, previsíveis e transparentes para a actuação de organizações estrangeiras no espaço social angolano. Essa ambiguidade cria um ambiente de incerteza, fragiliza a autoridade estatal e contribui para a politização de iniciativas que deveriam ser avaliadas com critérios técnicos, éticos e legais.

Considerações finais

O caso da ONG ZUZU FOR ÁFRICA ilustra como a filantropia contemporânea opera simultaneamente nos planos económico, simbólico e político. A ajuda material, a narrativa mediática e a disputa por legitimidade estão profundamente interligadas. Em sociedades marcadas por desigualdades históricas e fragilidade institucional, a forma como a pobreza é representada torna-se tão relevante quanto os recursos mobilizados para combatê-la.

A polarização observada não é um fenómeno isolado, mas expressão de tensões estruturais entre Estado, sociedade civil, actores externos e opinião pública. A ausência de um debate público amadurecido e de instituições sólidas transforma a filantropia num campo de disputa simbólica, onde dignidade, soberania narrativa e capital reputacional se cruzam de forma permanente.

Referências

Bourdieu, P. (1996). Razões Práticas: Sobre a Teoria da Acção.

Fanon, F. (1961). Os Condenados da Terra.

Mbembe, A. (2001). On the Postcolony.

Said, E. (1978). Orientalismo.

Kajibanga, V. Textos e intervenções sobre identidade africana, cultura e olhar endógeno.

Chouliaraki, L. (2013). The Ironic Spectator: Solidarity in the Age of Post-Humanitarianism.