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Marginal de Luanda, o cartão-postal que expõe o melhor e o pior de uma cidade que faz 450 anos

Teresa Fukiady
22/1/2026
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Foto:
Isidoro Suka

Requalificada para simbolizar a modernidade urbana da capital, a Marginal de Luanda é, também, hoje, palco de um drama silencioso: fome, exclusão social e infância interrompida.

Reabilitada e reinaugurada em 2012, num investimento de mais de 370 milhões de dólares,  a Marginal da Baía de Luanda, um dos espaços mais emblemáticos do País, vai perdendo, gradualmente, o seu brilho. Parques de diversão degradados e abandonados, jardins secos e pessoas ao relento são apenas alguns retratos do maior cartão-postal da cidade capital.

Ao amanhecer, quando o sol começa a raiar sobre o Atlântico e a cidade desperta para o seu frenesim diário, a Marginal de Luanda revela a profundidade da desigualdade social em pleno coração da capital do País. 

De um lado, turistas e moradores, em lazer ou prática de exercícios físicos, desfrutam da orla marítima. Do outro lado, crianças, jovens e mulheres com bebés ajeitam, expostos à fome e ao abandono, os papelões que servem de cama, e preparam-se para mais uma jornada de mendicidade.

Descalços, roupas gastas e sujas e olhares atentos a cada movimento, posicionam-se, estrategicamente, ao longo dos mais de três quilómetros de um local onde espaços verdejantes e edifícios de arquitectura clássica e moderna se cruzam.

Conhecem os horários de maior circulação, os percursos mais frequentados por turistas e nacionais, e os pontos onde a compaixão costuma render moedas. 

Rodrigo António, conhecido por Riquilson, vive há mais de dois anos na Baía da Cidade de Luanda. Dorme onde o corpo aguenta: bancos de betão, debaixo de pontes e sobre relvados. Os papelões substituem o colchão e a manta; os jardins, a mesa; a água usada para regar as plantas é a mesma que usa para beber, lavar a roupa e fazer a higiene diária para manter o pouco de dignidade que lhe resta.

Com 13 anos recém-completados, Riquilson abandonou os estudos na 3.ª classe. Fugiu de casa por maus tratos. Morava com o pai e a madrasta e mais dois irmãos, no bairro Malanjino, uma zona periférica luandense que, como tantas outras, é marcada por pobreza extrema, criminalidade e falta de saneamento, água e de luz. O adolescente carrega consigo um sonho que resiste à dureza do seu quotidiano: ser polícia.

Durante o dia, engraxar sapatos é a saída para a sobrevivência. Em dias ‘bons’, consegue angariar cerca de mil Kwanzas, que utiliza para comprar comida e dividir com outros meninos de rua, a quem chama de “irmãos”. É a família que ganhou nas ruas. 

Nesse ‘lar’ de Riquilson, as refeições são improvisadas. As latas servem de panelas. As mãos, aquelas que, durante o dia, engraxam sapatos e vasculham caixotes de lixo à procura de comida, substituem os talheres.

Ao contrário de Riquilson, Manuel Gaspar nunca frequentou a escola. Fez dos bancos das esquinas da Marginal o seu ‘habitat’ há mais de três anos. Não tem dúvidas de que a rua lhe oferece menos violência que o ambiente familiar.

“A minha madrasta e o meu pai batiam-me todos os dias”, denuncia o rapaz de 12 anos, que, além do contexto de violência doméstica que o fez abandonar o lar, convivia num contexto familiar onde o álcool e as drogas faziam morada.

Desde os 9 anos, Manuel, de corpo franzino, circula entre restaurantes à procura de comida. Descreve um ambiente de rua marcado por exploração e abuso entre crianças e jovens mais velhos, num contexto onde a fome, o medo e o abandono se tornam rotina. É uma dura realidade, entretanto, impossível de evitar, por falta de alternativas, confessa.

Alegria e Lukénia, duas mães na flor da idade, transformaram um dos três parques de diversão da Baía de Luanda num espaço improvisado para descansar com os filhos

Com bebés ao colo

Durante a manhã e final da tarde, períodos de maior circulação de viaturas e transeuntes, crianças e mulheres a abordarem automobilistas e pedestres, com mãos estendidas e olhos desesperados, é um cenário que se repete ao longo da Baía da Cidade de Luanda. A necessidade de matar a fome não tolera receios.

Alegria Bernardo vive na rua com a filha de quase um ano. Com um sorriso forçado no rosto, como que fazendo jus ao nome que carrega, conta que a rua se tornou o único espaço onde conseguiu paz e garantir alguma forma de sobrevivência.

Aos 20 anos, não esconde a incerteza e o medo constante do futuro, particularmente dos seus filhos. As ruas acolheram-na depois da fuga do lar por conta da violência doméstica. Esteve, antes, na casa de uma tia, mas não encontrou o amparo desejado.

Situação semelhante vive Lukénia Pinto, mãe de duas crianças – de quatro e dois anos de idade. Foi parar à rua depois de o marido vender a casa de herança, motivo de constantes conflitos entre irmãos. Ainda tentou abrigo num lar de acolhimento, no Zango, mas desistiu. 

“O sofrimento lá era pior. A comida não era boa, era muito seca. E o meu filho mais velho estava sempre doente”, relata. Lembra que o pequeno chegou a ser submetido a uma cirurgia, após desenvolver tuberculose ganglionar, doença normalmente associada à pobreza.

Actualmente, Lukénia, de 26 anos, sobrevive com o apoio de uma igreja católica e da solidariedade ocasional de quem passa pela Marginal de Luanda.

Alegria e Lukénia, duas mães na flor da idade, transformaram um dos três parques de diversão da  Baía de Luanda, marcados pela alta degradação e abandono, num espaço improvisado para descansar com os filhos, lavar a roupa e fazer as refeições.

Nas zonas circundantes da Marginal de Luanda, é comum avistar vários pedintes a interpelar automobilistas e turistas

Fenómenos sociais expostos na Marginal

A realidade que se vive na Marginal de Luanda reflecte um problema estrutural mais amplo. Além da pobreza extrema, grande parte das pessoas em situação de rua são empurradas pela violência doméstica.

Dados do World Poverty O’clock apontam que a pobreza extrema atinge mais de 11,8 milhões de angolanos, ou seja, uma em cada três pessoas. Por sua vez, o  African Poverty Clock revela que, em Angola, pelo menos cinco em cada dez crianças vivem em condições de pobreza extrema. 

Esta realidade é um dos principais factores associados ao abandono escolar, ao trabalho infantil e à migração precoce para as ruas das grandes cidades.

Parque de diversão visivelmente degradada

Acções para travar curso da degradação

Reinaugurada em 2012, a Marginal de Luanda foi projectada com uma área de 3,1 quilómetros de passeio marítimo e de ciclo-vias, três parques infantis, três espaços para prática do desporto, cinco campos de street basket, cinco espaços para eventos culturais, praças públicas e jardins.

Hoje, porém, grande parte das infra-estruturas encontra-se degradada. Os parques infantis, por exemplo, estão abandonados, e servem de refúgios para os sem-abrigos. 

Entretanto, no terreno, algumas acções tentam inverter o quadro. Duas quadras de basquetebol, por exemplo, estão a ser reabilitadas, num acordo entre a Embaixada da China e a Administração Municipal das Ingombotas. 

As obras incluem a reparação das cercas metálicas, a substituição das tabelas e dos aros de basquetebol, bem como a reabilitação e pintura do revestimento do piso, estando igualmente prevista a integração de elementos multiculturais no esquema de pintura dos pisos e do espaço circundante.

No ano passado, a Baía de Luanda sofreu algumas intervenções pontuais como pinturas dos bancos e limpeza dos jardins.

Cidadãos apelam à manutenção do espaço

Avelina Lopes, moradora da Ilha de Luanda, reconhece que o actual estado da Marginal de Luanda não é dos melhores. Dentre os principais problemas, aponta para a falta de saneamento básico.

“Ao caminharmos, sentimos um cheiro nauseabundo, que é prejudicial à saúde”, denuncia a cidadã que leva, com frequenta, a filha a um dos parques de diversão aí instalado.

“Frequento este parque há mais de cinco anos. No início, estava tudo bem, mas, há dois anos, vê-se, a cada dia, a degradação e o desaparecimento de alguns equipamentos”, lamenta.

Avelina diz que, além da falta de manutenção, a degradação deve-se, em grande parte, ao vandalismo.

Afonso Santos, outro transeunte que utiliza o local para a prática de exercícios físicos, denuncia a imagem de degradação do local e o cenário de pobreza exposto pelos pedintes: “É uma tristeza. Infelizmente, é a realidade do País imposta pela pobreza. Em quase todas as esquinas, é possível avistar pessoas a pedir esmolas”.

Queixa-se da falta de balneários públicos, motivo do cheiro nauseabundo que surge do facto de algumas pessoas fazerem ‘necessidades’ no local. 

O funcionário público recorda, com saudades, os verdejantes dos jardins que, agora, devido à seca, mudaram de cor. Pede, por isso, medidas rápidas para recuperação de algumas zonas.

Administração responsabiliza cidadãos

Em entrevista exclusiva à revista Economia & Mercado, Milca Caquesse, administradora do município das Ingombotas, jurisdição geográfica em que está integrada a Marginal de Luanda, admitiu complexidade na gestão do local, e associou a degradação de partes do espaço ao mau uso pelos cidadãos.

“É uma área de gestão complexa. É um espaço público aberto para todo o mundo, mas que, na maior parte das vezes, os cidadãos não sabem usar o espaço Baía de Luanda. Temos ainda muitos casos de vandalização, furto de árvores e das plantas. Temos, sim, segurança privada e a nossa Polícia, mas, de quando em vez, ainda encontramos esses constrangimentos”, explicou, durante uma entrevista a ser publicada na íntegra nos próximos momentos no portal da E&M.

Por ocasião dos 450 anos da Cidade de Luanda, que se assinalam no dia 25 de Janeiro, a revista Economia & Mercado vai publicar um ciclo de reportagens, trazendo um retrato fiel de importantes pontos da capital do País e a reacção dos seus governantes.