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Um ano de cólera em Angola: Quase 900 óbitos em mais de 36 mil casos notificados

Teresa Fukiady
7/1/2026
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Foto:
DR

Um ano depois da instalação do surto de cólera em Angola, a doença continua a marcar o panorama sanitário nacional, embora as autoridades considerem o quadro sob controlo.

Foi a 7 de Janeiro de 2025 que as autoridades sanitárias confirmaram, em Cacuaco, Luanda, os primeiros casos de cólera. Um ano depois, a doença continua a marcar o panorama sanitário nacional, com mais de 36 mil casos notificados, que resultaram em quase 900 mortes, embora as autoridades considerem a situação actualmente sob controlo.

O que começou como um surto rapidamente atravessou o País e transformou-se numa das mais graves epidemias registadas nos últimos anos, levando à reactivação da Comissão Nacional Multissectorial de Controlo da Cólera e à implementação de um Plano Nacional de Contingência.

A capital do País continua a ser o epicentro da epidemia, concentrando o maior número de infecções (7.056) e de óbitos (223) com base no último boletim semanal de 28 de Dezembro de 2025 a 3 de Janeiro de 2026. 

Apenas três províncias — Cuando, Moxico e Moxico Leste — não registaram ocorrências da doença, fortemente associada às precárias condições de saneamento básico e acesso limitado à água potável.

Em Novembro, Angola foi apontada pelo Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças como um dos países com o pior surto de cólera no continente em 25 anos. Segundo a organização, em 2025, África viveu o mais grave surto de cólera das últimas duas décadas e meia, impulsionado por falhas no acesso à água potável, saneamento básico insuficiente e infra-estruturas de saúde fragilizadas.

Esta não é a primeira vez que Angola enfrenta uma epidemia de grandes proporções. Em 2006, o País registou um surto severo de cólera, com o primeiro caso identificado em Luanda, a 13 de Fevereiro, que se propagou por várias províncias e causou mais de mil mortes, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Até ao momento, o Governo ainda não apresentou um balanço público sobre os custos associados ao combate à epidemia. Para este ano, está previsto no Orçamento Geral de Estado (OGE) para o Ministério da Saúde (MINSA) uma dotação de 1,911 mil milhões de Kwanzas para os Encargos com o Plano Nacional de Resposta para o Controlo da Cólera.

O Presidente da República, João Lourenço, autorizou a despesa de carácter urgente de 14 mil milhões de Kwanzas (cerca de 15 milhões de dólares) para o Ministério da Energia e Águas, destinada à aquisição de produtos químicos para o tratamento da água. 

A nível internacional, a União Europeia disponibilizou 200 mil euros (mais de 230 mil dólares) em ajuda humanitária para apoiar os esforços da Cruz Vermelha em Angola, incluindo o fornecimento de água potável, cuidados de saúde, saneamento e higiene, e iniciativas de comunicação de risco e mobilização comunitária. 

Por sua vez, uma iniciativa conjunta  OMS e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) disponibilizou 1 milhão de euros para o combate à doença em Angola, enquanto o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças de África (África CDC) doou 150 mil dólares para reforçar a resposta à epidemia.

O Plano Nacional de Contingência do Governo incluiu, entre outras medidas, campanhas de vacinação de resposta em massa, o reforço da vigilância epidemiológica e laboratorial, a expansão do acesso à água potável e ao saneamento básico, bem como intervenções comunitárias e acções de comunicação de risco. Durante a campanha de vacinação, mais de dois milhões de pessoas foram imunizadas contra a cólera.

Uma doença comum entre nós - perspectiva especialista em Saúde Pública

O especialista em Saúde Pública, Jeremias Agostinho, alerta para a continuidade da transmissão e para as condições que favorecem a propagação da cólera em Angola. 

“Pelo andar da carruagem, tudo indica que essa epidemia veio para ficar. Ou seja, é muito provável que a cólera passe a ser mais uma doença comum entre nós”, sublinha o médico, lembrando que a cólera é uma doença com causas conhecidas, tratamento disponível e formas eficazes de prevenção.

Para Jeremias Agostinho, a persistência de problemas como a falta de água potável e canalizada, o saneamento deficiente, a defecação ao ar livre, o esvaziamento rápido dos contentores e o desassoreamento das valas de drenagem continuam entre os factores que comprometem o controlo da doença. 

“São um conjunto de medidas que devem ser tomadas para cortar [a transmissão] e não conseguimos. Então, o balanço claramente é negativo, e principalmente porque, agora, segundo os dados internacionais, temos um dos surtos activos mais preocupantes a nível global” afirma.

Chama a atenção para o impacto das chuvas e para a fragilidade das condições de saneamento do saneamento: “Temos uma redução das mortes, mas o número de casos mantém-se. A situação vai agudizar-se um pouco mais por causa das chuvas”.

O especialista observa que o investimento a nível da vigilância epidemiológica da doença não é suficiente para cortar a cadeia de transmissão. 

Realça que a situação da pobreza, a falta de serviços básicos e o acesso limitado à água potável criam um ambiente propício para a continuidade da doença.  “Neste momento, temos todas as condições criadas para que essa epidemia da cólera continue, pelo menos até o final [da estação chuvosa]. Se em cacimbo não forem tomadas outras medidas, vamos voltar a ter um aumento de casos”.