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“Para manutenção da Baía de Luanda, não se gasta menos de 200 milhões Kz/mês” – Milca Caquesse, administradora da Ingombota

Teresa Fukiady
23/1/2026
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Foto:
Carlos Aguiar

Vandalismo e uso indevido são apontados como entraves à preservação de um dos principais símbolos da cidade, segundo a administradora Milca Caquesse.

A manutenção da Baía de Luanda, um dos principais cartões-de-visita da capital e tido como integrante do selecto grupo das baías mais belas do mundo, representa um encargo mensal elevado para os cofres públicos. De acordo com a administradora municipal da Ingombota, Milca Caquesse, “para manutenção da Baía de Luanda, não se gasta menos de 200 milhões Kz/mês”, excluindo algumas obras de reabilitação.

“Estamos a falar em despesas com água e iluminação pública, que é paga à ENDE. Aquilo é uma infra-estrutura de responsabilidade do município, é como se fosse uma escola ou um hospital. Tem que pagar a energia elétrica, a água, a manutenção dos jardins, que é super cara, e a própria segurança privada. Não se gasta menos do que isso, e este valor não inclui as obras que vamos fazer”, explica.

Em entrevista exclusiva à revista da Economia & Mercado, a responsável admite complexidade na gestão da Baía, por se tratar de um espaço público aberto e de elevada circulação. Aponta que parte da degradação em que se encontra é resultado do uso indevido por parte dos cidadãos e também da vandalização.  

“É um espaço público aberto para todo o mundo, mas que, na maior parte das vezes, os cidadãos não sabem usar. Temos ainda muitos casos de vandalização, furto de árvores e das plantas. Temos, sim, segurança privada e a nossa Polícia, mas, de vez em quando, ainda encontramos esses constrangimentos”, lamenta.

Milca Caquesse assegura que os parques de diversão, descritos na reportagem da E&M como degradados e abandonados, são reabilitados anualmente, mas que o uso indevido e o vandalismo fazem com que as instalações se degradem rapidamente.  

Garante que, assim que o orçamento esteja aprovado, serão disponibilizadas verbas para novas obras de reabilitação. “Todas as infra-estruturas públicas a nível da Ingombota vão ser reabilitadas”, assegura.

Milca Caquesse denuncia que as crianças são instrumentalizadas pelos adultos a irem pedir proventos na rua para levarem para casa

Mendicidade preocupa Administração

A gestora reconhece que a mendicidade na Marginal da Baía de Luanda é uma das principais preocupações da Administração da Ingombota, fenómeno que, segundo a instituição, envolve maioritariamente crianças oriundas de outros municípios. 

“O que acontece com o fenómeno da mendicidade é um pouco mais grave. As crianças são instrumentalizadas pelos adultos a irem pedir proventos na rua para levarem para casa. Se você não tiver nada para levar para casa, nem ousem colocar os pés em casa", denuncia.

De acordo com Milca Caquesse,  a nível da Administração, já ocorreram processos de reunificação familiar e o encaminhamento de crianças em lares de acolhimento: “Os próprios pais depois aparecem e querem tirar os seus filhos, responsabilizam-se e os filhos voltam para a rua. Estamos a fazer um trabalho coordenado pelo Governo Provincial de Luanda para resolvermos este problema da mendicidade”.

E acrescenta: “É óbvio que, a nível do município da Ingombota, se torna mais característico; é aqui onde temos superfícies comerciais de grande porte. Os cidadãos são insistentes em dar dinheiro  ou alimentos, pensando que estão a ajudar, mas só estão a prejudicar o Estado. Se quer fazer uma doação, tem que ir a um lar ou igreja”, aconselha.

“Quanto menor for o bebé mais benefícios consegue. Quando as crianças começam a ficar grandes, entre os 7 e 8 anos, as mães largam para que elas possam pedir dinheiro e esmolas sozinhos. Portanto, é uma situação preocupante que afecta o futuro daquelas crianças mais do que a própria beleza a nível da Baía”, relata.

Administradora informa que a Ingombota tem apostado num novo modelo de gestão de resíduos

Mais largos reabilitados

No âmbito das comemorações dos 450 anos de Luanda, Milca Caquesse avança que vários largos da Ingombota serão reabilitados e devolvidos à comunidade, tendo em conta a criação de espaços públicos vocacionados para o desporto, lazer e infância, respeitando as normas de ocupação de espaços urbanos.

Aponta o crescimento populacional desordenado como um dos maiores problemas do município: “Não acompanhamos esse desenvolvimento com infra-estruturas”.

No domínio do saneamento básico, a Ingombota tem apostado num novo modelo de gestão de resíduos. Em 2025, foram criadas 28 cooperativas, empregando cerca de 560 cidadãos, maioritariamente jovens, para reforçar a limpeza pública e implementar a recolha de lixo porta-a-porta

“Se conseguirmos que o maior número de munícipes aceite que se recolha o lixo à porta, diminuímos os contentores, que passam uma péssima imagem para o centro da cidade. Devem perceber que a Ingombota é o centro, e aqui a responsabilidade é maior. As pessoas querem o centro limpo. Se a Ingombota estiver suja, dá a impressão de que todos os municípios estão sujos porque você está na cidade”, desabafa.

A responsável reconhece progressos, mas admite que os desafios persistem, sobretudo numa cidade já densamente construída: “Queremos mais escolas, centros de saúde e espaços desportivos, mas já não temos espaço. O caminho passa por preservar, reabilitar e ampliar o que existe”, conclui.